quinta-feira, 15 de outubro de 2026

NECRO - Capítulo 1: Dívida


Gira a roda, tece o fio, abre o véu do rio frio...


    
A névoa ocupava todo o espaço escuro, transformando o que estava ao redor em vultos cinzentos e imprecisos. Não havia vento, mas a fumaça arroxeada se movia rápido, abafando os sons e escondendo o que estava a poucos metros de distância.


    Dentro dessa bruma, figuras vivas e distorcidas estavam posicionadas em um círculo. Elas permaneciam imóveis, quase fundidas à névoa, mantendo um canto sincronizado. Entre elas, um rapaz levantou algo com as mãos. Sua silhueta tremeu no nevoeiro, até estabilizar-se quando inclinou-se para o meio do círculo.
    Ele segurava um pote retangular, vertendo o conteúdo sobre a terra batida. O líquido viscoso atingiu o solo, espalhando-se em um tom de verde pálido que parecia brilhar fracamente sob a penumbra, levantando também o cheiro forte de menta.


    No centro exato daquela mancha, cercado pelo círculo de pessoas que não ousavam cruzar o limite invisível, repousava um pequeno laço de fita preta. O objeto estava gasto, com as pontas desfiadas, permanecendo completamente estático enquanto o sorvete derretido de queijo com menta o cercava.


    Ao redor do laço, doze velas de sebo negro foram acesas uma a uma. Suas chamas eram baixas, de um azul anêmico que não projetava calor, mas o pouco que iluminavam revelava as faces de pedras retangulares fincadas no chão ao redor do grupo, além das feições daqueles reunidos em torno das velas.


    Os lábios de Astra moviam-se de forma não natural, e a sombra debaixo de seus pés sofreu um tranco violento. A mancha escura inflou e se descolou da lama, ganhando altura com uma rapidez agressiva. Seu Gengar Mega Evoluído ergueu-se atrás dela, uma massa de sombra sólida que ocupava o espaço entre as lápides, sustentando seu sorriso imenso, cujas fileiras de dentes brancos brilhavam sob o reflexo azulado das velas.


 — Gira a roda, tece o fio... — a voz dela vibrou, continuando a canção repetida por todos.


    O ritmo era estabelecido pelo som seco de madeira batendo contra a terra. Spencer, de ombros curvados, golpeava o chão com a ponta de sua bengala. A cada impacto, um gás denso e acinzentado escapava de sua boca, moldando o corpo do Haunter que agora pairava sobre ele.


 — Abre o véu do rio frio... — ele entoou.

    Por trás das lápides que a névoa ainda não havia engolido, formas começaram a se desprender da escuridão. Eram dezenas de olhos e contornos translúcidos que flutuavam baixo, aproximando-se silenciosamente até o limite da luz das velas.

    Pokemon fantasma pareciam entrar em transe, observando o círculo enquanto a fumaça arroxeada passava entre seus corpos imateriais.


    A voz mais aguda e melódica vinha de Phoebe, sobrepondo-se ao batucar da bengala de Spencer. Das costas dela, o seu Dusknoir se projetou para fora. O olho escarlate no centro do rosto do Pokemon abriu-se, cortando a névoa, enquanto o vazio em seu peito ressonava em sincronia com o canto.


 — Pela fita, pelo nó... — ela cantou, mantendo o olhar fixo no laço preto.


    Ao lado dela, Allister fazia movimentos trêmulos. Sua máscara parecia apertada contra o rosto, fundindo-se à pele sob a luz azulada. A sombra do garoto expandiu-se pelo chão até cobrir os pés de todos os presentes, e dela o seu Gengar emergiu com os olhos vermelhos brilhando logo atrás de Allister.


 — O q-que é alma não v-vira pó... — a voz dele saiu abafada pela máscara e hesitante como o habitual.


    No canto oposto do círculo, a Banette Anna movia seus braços. Ela murmurava o ritmo da canção enquanto seus dedos de pano trabalhavam como se estivesse puxando fios invisíveis. Ela agia sobre as sombras projetadas pelas velas, costurando as bordas da escuridão dos outros treinadores em um esforço para forçar o centro do círculo a ceder.


 — Busca o nome, traz o rosto, o silêncio é o nosso imposto...


    Diego mantinha o corpo rígido em seu lugar no entorno do círculo. A pele pálida e as olheiras fundas, que se destacavam acima da gola alta do casaco, eram o único sinal visível do desgaste físico que ele ignorava. Seus olhos não desviavam do laço preto. Conforme o canto ganhava força, uma névoa mais escura começou a brotar de seus poros. Sua Dark Aura manifestou-se, subindo para envolvê-lo como uma chama crepitante.

 — Onde o dia não alcança e a sombra se faz, o portão se balança, mas não traz a paz... — As vozes de Diego, Astra, Spencer, Phoebe, Allister e Anna fundiam-se sob as velas.

    Diego não desviava o olhar do centro. A Dark Aura que emanava dele tornou-se tão densa que começou a distorcer a visão do que estava do outro lado do círculo, como uma cortina de fumaça pesada que bebia a luz azul das velas.


    Nas suas costas, as sombras movimentavam-se mais apressadas, aos poucos eram espremidas e ganhavam estrutura física. Duas projeções rígidas e irregulares romperam a névoa, esticando-se para o alto como galhos negros, arqueando-se em uma versão incompleta e sombria de asas.

 — Vem do escuro, vem do nada, pela trilha abandonada... — o grupo repetia, as vozes subindo de tom enquanto o solo sob seus pés começava a vibrar cada vez mais constante.

    O laço de fita preta no meio da mancha verde estremeceu. Sob a força do que Diego estava fazendo, o objeto se descolou da terra, subindo devagar enquanto o sorvete derretido de queijo com menta parecia ferver, com bolhas estourando na superfície viscosa. Os Pokemon fantasmas que cercavam o local deram um passo coletivo à frente, os olhos de todos estavam fixos na levitação do objeto, como se também esperassem que o véu se rasgasse ali mesmo.

Pelo doce que azedou
Pelo rastro que ficou
Busca o nome, traz o rosto
O silêncio é o nosso imposto

Onde o dia não alcança e a sombra se faz,
o portão se balança, mas não traz a paz

Vem do escuro, vem do nada, pela trilha abandonada

Gire a roda, tece o fio, abre o véu do rio frio
Gire a roda, tece o frio, abre o véu do rio frio

    Diego deu um passo à frente, sem cruzar o limite das velas, e sua voz se sobrepôs a todas as outras, rouca e carregada com urgência.

 — Não recuo, não me afasto, sigo o cheiro, sigo o rastro! — Cantava cada vez mais incisivo.

    O ar ao redor do círculo ficou tão gelado que a umidade da névoa começou a cristalizar, caindo sobre o laço como fuligem branca. O som das vozes dos outros começou a soar abafado, como se estivessem todos debaixo d'água.


 — Quebre o mármore, rasgue o chão, traga o sopro e a pulsação! — Diego quase gritou o verso final, mantendo os olhos escarlates fixos no laço que agora girava violentamente no ar.


    As projeções de asas em suas costas se abriram por completo, cortando a névoa com um estalo. Por um milésimo de segundo, o centro do círculo não continha apenas o laço, a escuridão ali pareceu se tornar absoluta, um buraco negro que sugou todo o cheiro de menta e o som do ambiente.


 — Leuri! — Diego chamou, estendendo o braço para frente.

    As doze velas de sebo negro se apagaram simultaneamente, não por vento, mas como se tivessem sido esmagadas. O laço preto despencou no chão, voltando a ser apenas um pedaço de fita sujo na lama.


 — NÃO! — Diego empalideceu ainda mais, batendo com os dois punhos no chão enquanto sua Dark Aura se propagava como um pulso pelo cemitério, fazendo os Pokemon fantasma selvagens irem ao chão e algumas lápides racharem.

    A energia que sustentava as sombras dos Gengar, do Haunter e de Dusknoir evaporou, deixando os seus treinadores exaustos. Anna tombou para o lado, como se perdesse o fio que costurava. Astra desabou de joelhos, arquejando, com o suor escorrendo pelo rosto, enquanto os outros caíam ao mesmo tempo.


 — Frou?

    Furfrou levantou-se de trás de uma lápide onde estava escondida esperando tudo passar. Ela correu até Diego, mostrando preocupação pelo olhar enquanto ele apertava os punhos com força. As asas de suas costas se retraíam, desfazendo-se em sombras.


 — Não deu certo, Furfrou... Eu segui todos os passos dessa merda, por que não consigo encontrá-la? — Sua voz engrossou, distorcendo-se conforme se irritava mais.

 — Couf... — Furfrou encolheu o pescoço, baixando as orelhas.

 — Talvez ainda tenha algum livro escondido na biblioteca do Sea Mauville — Diego levou uma mão à testa, afundando-a no cabelo. — Ou encontre outro objeto mais pessoal na casa dela... Não posso perder tempo, vamos partir agora.


 — Diego... — Ele sentiu uma mão agarrando em sua perna, e olhou para baixo, vendo Astra se arrastando ofegante. — Até onde... pretende ir com isso?


 — Até trazê-la de volta — ele tentou continuar andando, mas Astra segurou sua perna com as duas mãos, se colocando de joelhos.


 — Você não está bem, não sabe com o que está mexendo. Pode fazer algo sem volta!


 — É m-muito fácil se p-perder... — Allister murmurou, apoiando-se nos braços de Gengar para se levantar. — E-Esse caminho é traiçoeiro.


 — Nem parece o mesmo garoto sabichão que eu conheci — Phoebe estava sentada com as mãos na terra e as costas jogadas para trás. — Mesmo triste, você nunca faria isso. Nos usando nesse seu desespero...


 — Eu dei a chance de aceitarem por livre vontade! Por acaso não querem que ela volte?!


 — Não é sobre isso, jovem! — Spencer franziu a testa. Haunter o levitava para que voltasse a ficar de pé, apoiando na bengala. — Nossos Pokemon e nossos corpos estão exaustos... Sentimos toda a sua dor a cada vez que nos obriga a fazer isso. Todos nós tivemos contato com o sobrenatural, isso mudou nossas vidas, aprendemos que existem regras que não podem ser quebradas. Por mais que sinta falta dela...


 — Bann, Banette! — Anna também reforçou o discurso, abrindo o zíper de sua boca para falar.


 — Não chegue ao ponto que Marnie chegou — Astra continuou, vendo a expressão amarga do garoto. — Leuri não iria querer isso.


 — Não tem nada a ver com a Marnie, ela colocou o mundo em risco para conseguir o que queria. Eu quero corrigir uma injustiça, e diferente dela, eu tenho o poder para isso. — Diego olhou para a palma da mão direita, onde uma sombra crepitou como uma chama.

 — Nós não podemos permitir isso — Astra se juntou aos outros, que encaravam Diego com Dusk Balls em mãos. — Para o seu bem, Diego, este é seu último aviso.

 — Frouuu... — Furfrou se viu no meio do conflito, mas Diego apertou os olhos, não hesitando.


 — Que seja assim, então.



    Astra mostrou uma expressão horrorizada enquanto seu corpo perdia as forças tombando para frente como se sua alma se esvaísse, ao mesmo tempo que Gengar, Mega Evoluído, atravessou seu peito rodeado por sombras púrpuras.

 — Trevenant, Forest's Curse! — Diego arremessou uma Dusk Ball para frente.


    Imerso na escuridão, Trevenant foi rodeado por um espectro verde que subiu por seu tronco até se expandir por todo o cemitério. As árvores de galhos secos dobraram-se para agarrar Gengar, contendo sua investida.


    O olho vermelho de Trevenant acendeu enquanto seus dedos-galhos curvavam-se envoltos por uma energia macabra. Por baixo de Gengar, mais galhos surgiram, fechando-se ao redor dele como um caixão.


 — A-Ancient Power, Cursola! — Allister estendeu o braço com a manga da roupa maior que ele caindo.


 — Armaldo, sequência de Shadow Ball! — Spencer segurou a bengala com as duas mãos, batendo com ela na terra.


    Ao lado de Allister, a alma de Cursola retornava para seu corpo que voltava a se movimentar, acendendo dois olhos vermelhos. Rochas desprenderam-se do solo reagindo ao seu despertar, e foram lançadas na direção de Trevenant. Ao mesmo tempo, Armaldo reunia sombras crepitantes em uma enorme esfera que dividiu-se em várias menores, acompanhando a trajetória das rochas.


    Diego cerrou os dentes quando Trevenant foi atingido pelos ataques, perdendo o controle dos galhos das árvores secas. Ele puxou mais Dusk Balls, atirando-as para frente.

 — Thievul, Foul Play! Malamar, Psybeam!



    Elevando-se enquanto sombras se juntavam ao seu corpo, Thievul se lançou para frente, com suas unhas afiadas se revelando para o ataque. Malamar acendeu as luzes de seu corpo enquanto seus tentáculos a puxavam de dentro para formar um feixe distorcido que acompanhou a investida da raposa.


    Cursola e Armaldo receberam o combo de ataques, desabando um por cima do outro e deixando seus treinadores nervosos. Mas, antes que Thievul pudesse voltar para perto de Malamar, um grande braço roxo saído do chão agarrou seu corpo.


    O Gengar de Astra revelou-se gigantesco e gargalhando, atirando Thievul contra Malamar. Antes que Diego pudesse fazer algo, Anna a Banette atravessou uma lápide segurando numa esfera de sombras, explodindo-a nas costas deles, envolvendo-os numa nuvem de fumaça.

 — ? — Diego viu a fumaça mudando para vários tons de cores até dispersar-se completamente. Seu olhar foi guiado para a origem delas.


 — O fim não é este, principalmente para seu poder, Sableye — Phoebe dizia enquanto a transformação de seu Pokemon acontecia. — Use Shadow Sneak!



    Desfazendo-se em sombras, Sableye deixa seu escudo de cristal para trás, fincando-o no solo. Sua sombra rasteja pelo terreno, alcançando Diego que salta para o lado, fugindo dela.

 — Furfrou! — Diego chamou e sua parceira correu para a frente dele, rosnando para a sombra que se arrepiou e voltou a ter a forma de Sableye.

 — Throat Chop! — Phoebe esticou o braço ao comando.

 — Wild Charge! — Diego abriu os braços para frente enquanto as cordinhas de seu casaco balançavam com o vento.


    O entorno de Furfrou explodiu num clarão de eletricidade que marcou o chão enquanto seus pelos arrepiavam-se, balançando e sendo possível ver seus olhos. Ela foi ao encontro de Sableye, que tentou interceptá-la com seu punho. Luz e sombras desfaziam-se no embate, mas Furfrou empenhou-se mais, conseguindo vantagem para repeli-lo.

 — Está forte... — Phoebe cerrou os punhos. À sua frente, Sableye estava caído e rodeado por fumaça, e dois feixes retornavam Malamar e Thievul para suas Pokeballs. O garoto deu os ombros, tendo data a batalha como vencida, mas ela não podia aceitar isso. — Sabe o que eu acho mais triste ainda?

    Diego virou-se novamente, olhando-a com desdém. O Mega Gengar de Astra voltou a emergir do solo, ao lado da Banette Anna.

 — Está fazendo tudo isso por nada. Não vai conseguir o que quer, Diego, e sabe do que eu estou falando. Leuri e seus Pokemon morreram como heróis, terão um destino digno... Por muito que queira, não está acima das regras do outro lado.

 — Pode ter razão, eu não estou... Mas isso me deu uma ideia de pra onde devo ir agora.

 — Frou? — A poodle o olhou temendo ter entendido.

    Os olhos de Diego acenderam em vermelho e ele levantou uma mão, puxando pelas sombras do chão que se emaranharam ao seu redor, quase como redemoinhos sombrios. Phoebe e os demais olharam assustados enquanto ele regressava Furfrou para sua Love Ball, sendo consumido.

 — O-o além-vida... — Allister balbuciou, baixando os ombros.

 — Está tentando ir até onde penso que está? — Phoebe correu para perto, mas recuou com a pressão das sombras.

 — Alguma vez já esteve lá?! — Astra gritou.

 — Ele não vai te ouvir — Spencer impôs a voz. — Volte, Diego!

 — Vou fazê-lo me ouvir! — Diego disse antes de desaparecer nas sombras, deixando todos para trás.



    Quando tudo é reduzido às sombras, nada tem forma definida. Um borrão como o de uma caligrafia mal apagada pode ser você, e o seu caminho são as pautas de uma folha de papel manchada. As linhas vão se perdendo conforme você avança... até despencar. Baixo, fundo, uma queda da qual não se deve se reerguer.


    O borrão em direção ao abismo segue as linhas misturadas com a liberdade tirada daqueles que as cruzavam. O Além-Vida pode te levar a qualquer lugar desde que use os sentimentos certos para se guiar. 


    O borrão estremece, se deforma ainda mais, a cada desvio que faz pelas linhas. É difícil manter-se concentrado numa direção, a força exigida é gigantesca, mas precisa resistir.


    A queda atinge uma nova profundidade, se tornando mais densa. O borrão vai ganhando mais detalhes, braços, pernas. A viagem até então silenciosa agora é atormentada pelo sofrimento de outros borrões desformes, imagens horríveis que vão desaparecendo na escuridão.


    Temendo tornar-se um daqueles em lamentação, o caminho segue até o primeiro rastro de cor, os primeiros vislumbres de luz e formas concretas. É essa a direção. É para lá que...


    Se recompondo, Diego aterrissa envolto pela manifestação de sua Dark Aura. Seu corpo cai para frente, mas consegue se apoiar com os braços no chão, sentindo suas energias esgotadas pela viagem. Ele gira os olhos rapidamente sem mover o rosto, estudando o seu ambiente, deparando-se com um enorme salão extremamente escuro de paredes de diamantes rosas e azuis, teto alto iluminado por tochas e dois tronos vermelhos, um extremamente gigante e o outro ao lado um pouco menor.

 — Ah! — Diego precisou se apoiar mais ainda no chão quando uma explosão fez todo o salão tremer. Ele levantou a cabeça, conseguindo vislumbrar alguém que já conhecia, iluminado pelas chamas enquanto seus ouvidos zumbiam.


Pokémon Super Mystery Dungeon OST - Surprise Attack: Yveltal!


    Yveltal, Deus do Submundo, um dos 12 maiores Deuses do Coronet e o guardião do Domínio dos Mortos. Ele voava de um lado para o outro pelo espaço amplo.

 — O que todos vão pensar de mim agora?! — Sua agonia ressoava por todo o salão, espalhando aura obscura por todo o ambiente e invadindo a mente de Diego.

    A aura de Yveltal escurecia ainda mais o salão, deixando as chamas das tochas mais fracas, roubando sua vitalidade. Diego sentiu uma fadiga, mas aguentou de pé, cerrando seus olhos naquela forma de grande ave de rapina escarlate com veias negras por todo o corpo que era habitual de Yveltal assumir.

 — Yveltal! — Diego o chamou, mas ele não pareceu ouvir. — YVELTAL!

 — Xerneas virá brilhar aqueles chifres para cima de mim... — Yveltal levou as asas a cabeça, aterrissando em seu trono como um casulo. — Que ódio, aquele infeliz! Por que tudo tem que ser difícil para mim? Estou cercado de inúteis! Se importassem com o quanto de trabalho eu tenho que fazer...

 — Ah, colapso de ego... — Diego cruzou os braços, escutando as lamúrias da divindade. Conhecia bem como aquilo funcionava.


 — Couf! — Furfrou deixou sua Love Ball envolta por pequenos corações que logo desapareceram. Ela olhou assustada para onde estava, encolhendo-se.

 — MALDIÇÃO! É TUDO CULPA MINHA! EU SOU TERRÍVEL! — Yveltal aumentou a pressão de sua aura pelo ambiente, que cada vez mais parecia sem vida, desbotando as cores.

 — Coooouf! — Furfrou fechou os olhos assustada, mas não sentiu nada de diferente. Ela se voltou para Diego, surpresa ao vê-lo sustentar um sorriso doído.

 — Não se preocupe, Furfrou, estou te protegendo — ele disse, piscando com um olho. — Ele só vai me escutar se lutarmos. Preciso da sua ajuda, vamos combinar nossas habilidades para chamar a atenção dele.


    Mesmo receosa, Furfrou assentiu, se posicionando à frente de Diego. O garoto soltou um suspiro, entortando levemente o corpo com os braços para frente. Uma de suas mãos caídas e pálidas faiscou em sombras e ele a apontou para a Pokemon.

 — Use Wild Charge!


    As orelhas de Furfrou balançaram quando seus pelos espetaram energizados por cargas elétricas, envolvendo-a totalmente na eletricidade. Ela avançou pelo salão escuro como um foguete luminescente, usando da estrutura do trono de Yveltal para ganhar mais impulso até ele.


 — Hm? — Os olhos azuis vazios de Yveltal acenderam-se em vermelho, percebendo a luz de Furfrou. — Não vê que eu quero ficar SOZINHO?!

    Batendo suas asas, Yveltal provocou uma pressão tão forte que dispersou toda a eletricidade ao redor de Furfrou, lançando-a para longe.

 — Argh! — Diego rangia os dentes enquanto levantava sua mão de sombras.

    Inesperadamente, o chão se rompeu numa pequena fenda de onde uma mão de ossos emergiu. Logo um esqueleto ergueu-se, agarrando Furfrou antes que ela caísse.


 — Frou??! — Furfrou arregalou os olhos ao ver o esqueleto, que fez sinal de positivo para ela.


 — Use Dark Pulse — Diego apontou para o trono.


    Os pelos de Furfrou eriçaram e ela levantou o rosto. Em sua boca, anéis obscuros começavam a surgir, girando e entrelaçando-se, fazendo uma pressão que levantou seus pelos do rosto, sendo possível ver seus olhos. Ela rosnou jogando o corpo para frente e os anéis estenderam-se em linha reta na direção de Yveltal.


 — Me deixe em paz! — Yveltal se viu envolto pelos anéis, fechando suas asas ao redor do corpo como um casulo.

 — Furfrou, Facade!


    Saltando pela estrutura do trono de Yveltal, Furfrou chega até ele, envolta numa aura laranja que faz seus pelos brilharem. Ela se lança sobre ele, fazendo seu casulo chacoalhar.


 — O QUE VOCÊ QUER COMIGO? — As asas de Yveltal se desgrudaram e seu rosto ficou bem próximo de Furfrou. Sua aura intensificou, afastando a energia que envolvia seu corpo e a fazendo perder o equilíbrio.

 — Ah! — Diego saltou, agarrando Furfrou antes que ela caísse no chão. Ele cai sentado com ela, que lambe seu rosto.

 — Você? — Yveltal finalmente o percebe, e sua aura para de pressionar o ambiente, devolvendo suas cores e a vitalidade do fogo das tochas.


 — Yveltal, eu exijo uma audiência com você — Diego disse, se levantando com os punhos cerrados e o peito estufado.


 — Ah, você exige? — desdenhou, gargalhando a seguir.

    Yveltal acomodou-se no trono, apoiando o peso do corpo esguio contra o encosto vermelho. Suas garras rasparam de leve na pedra, fazendo um chiado agoniante.

 — Acha que tem alguma autoridade aqui para exigir algo de mim? Só pode ter perdido a noção.

 — Eu escutei seu chororô, não me parece que você esteja num bom momento.

 — Humph... — Yveltal reclinou o corpo no trono, baixando suas asas. — Estou no meio de uma situação por aqui, por isso vou deixar essa passar. Como se eu já não fosse ocupado o suficiente, agora preciso fazer o trabalho dos outros!

 — Eu vim para falar sobre a Leu...

 — Veja isso! — Yveltal o interrompeu.

    Um conglomerado de sombras se formou por cima de Diego, que recuou para trás em confusão quando um pergaminho se materializou, rolando infinitamente por todo o chão do salão.


 — Essas são as consequências da última brincadeira de vocês. Eternatus soltou todas as bestas que estavam aprisionadas há séculos, e como você bem sabe, elas foram criadas para se opor a nós. Uma delas em especial fez uma visita ao meu reino... Se chama Pheromosa. Ela foi criada especificamente para me destruir, e já começou me estressando já que capturou o Marshadow. Agora quem vai cuidar dos mortos? Eu não vou! Eu já faço coisas demais e não sou reconhecido por metade!

 — Eu não sei quem é Marshadow, mas eu vim aqui porque a Leuri...

 — Marshadow é o ceifador — Yveltal o interrompeu novamente. — O trabalho dele é guardar as malditas Portas da Morte. Mas como ele foi capturado, Pheromosa acorrentou as Portas e as chutou para o Tártaro. Consegue imaginar as consequências disso?

    Diego sentiu um arrepio ao escutar aquele nome. Havia aprendido que o Tártaro é uma força primordial tão antiga, tóxica e perigosa que até os deuses têm pânico de pisar lá, pois perderiam seus poderes ou seriam destruídos pelas criaturas locais. É para lá que foram banidos os piores monstros da história...


 — Bom, mas se Pheromosa ainda está aqui... — Diego disse, cruzando os braços. — Você deve ter poder o suficiente para destruí-la em seu próprio domínio.

    Furfrou cheirava o pergaminho, mas ele se enrolou de supetão, a deixando arrepiada. Numa forma mais compacta, subiu até o trono de Yveltal, que encolheu-se levemente ao redor do próprio corpo. Diego sabia como ele podia ser mimado, mas dessa vez parecia assustado também.


 — Se eu descer até lá e lutar com algo feito para me anular, posso me esgotar por completo — Yveltal admitiu, com a voz mais baixa. — Não posso correr esse risco. Não agora.


 — Bom, eu te desejo boa sorte com os seus problemas — Diego deu um passo à frente. — Mas eu vim até aqui atrás da Leuri. Estou aprofundando todas as minhas técnicas de invocação, mas ainda assim não consigo falar com ela. Não pode ter sido o fim, não daquele jeito!

 — Não está errado, ninguém consegue morrer de verdade agora — Yveltal rebateu, mas seu tom de voz não carregava o típico desprezo, estava mais estressado. — Com o Marshadow mantido prisioneiro, as almas não são guiadas. Se você quer encontrar a sua garota, vai ter que limpar esse caminho. Ela deve estar presa no fluxo de almas do Érebo, vagando sem rumo como todas as outras que chegaram recentemente.


 — Então ela ainda está aqui!

 — Frou!! — Furfrou saltou ao vê-lo sorrir e seu rosto ganhar cor.

 — Consegue me levar até ela?

 — Se ela estiver mesmo aqui, é claro — Yveltal disse, reclinando-se em seu trono. — Mas talvez possamos colaborar. Se recuperar as portas da morte para mim, posso ajudá-lo com a garota.

 — Está me pedindo para fazer o seu trabalho?


 — Existem leis que estão além de mim e de qualquer outro deus, Diego. Se eu interferisse diretamente marchando um exército até Pheromosa, isso ocasionaria uma guerra que destruiria tudo antes mesmo de Eternatus recuperar seu poder completo. Heróis, como você, são os únicos que conseguem agir abaixo do radar do destino.

 — Mas... Essa bagunça toda também é sua culpa! Leuri e eu não pedimos para nos envolver em nada disso e...


 — E você acha que isso vai ficar restrito ao meu domínio? — Yveltal inclinou o corpo para a frente, o seu rosto imenso aproximando-se de Diego. A aura obscura deu um leve estalo no ar. — Essa bagunça vai sangrar para o mundo dos vivos. Vai causar problemas na superfície, na sua realidade, com as pessoas que você conhece. Se o fluxo de almas não for restabelecido, o colapso vai engolir os dois mundos. É preciso recuperar as portas da morte, antes de qualquer outra coisa.


 — Eu não consigo fazer isso sozinho... Não sem ela comigo.

 — Tem tanto medo assim? — Yveltal afastou o rosto, e Diego olhou para sua sombra no trono. — Então talvez deva voltar para a sua vida e esperar o destino agir.


    Yveltal abriu suas asas como os braços de uma cruz, liberando sua aura intensa de sombras. Diego sentiu seu corpo sendo empurrado para trás como numa ventania, bem como Furfrou. Os dois só conseguiram gritar antes de serem totalmente engolidos pela escuridão, e no centro dela Yveltal e seu trono ficavam cada vez mais distantes.

Pokémon Omega Ruby & Alpha Sapphire Soundtrack - Wally Theme (Emotion)




 — Frooou! — Furfrou aterrissou numa pilha de caixas empoeirada, começando a tossir.

    O ambiente estava muito escuro, o que conseguia enxergar era graças a fraca iluminação que escapava pelas frestas de uma porta no teto, sendo possível alcançá-la por uma escada.


    Furfrou procurou por Diego, vendo-o sentado com os punhos cerrados sobre as pernas e as sobrancelhas arqueadas. O olhar apertado segurava suas emoções.


 — Ele me expulsou... Eu não acredito que esse foi o mais perto que cheguei de encontrá-la, tudo para ele me mandar embora depois de eu não aceitar sua chantagem — ele disse, dando um soco forte no chão.

    Furfrou baixou as orelhas ao vê-lo assim, até perceber algo. Entre as coisas que derrubou ao cair nas caixas estava um Teddiursa de pelúcia com vários rasgos. Ela entrou em alerta imediatamente, correndo até ele e o pegando com a boca.

 — Fmmf! — Furfrou o levou até Diego, soltando-o em seu colo.


 — O quê? — Diego pegou o boneco, então seus olhos afastaram-se e ele olhou para a saída no teto.

    Depois de subirem as escadas, Diego e Furfrou saíram do porão de uma casa antiga, o que era possível induzir pelo piso de tacos de madeira e os móveis embutidos. A sensação de familiaridade tomava conta de seus corações conforme andavam, passando pelos cômodos. Eles pararam quanto escutaram vozes vindo de um quarto.


 — Ela não acorda há dias... Eu sinto que está em sofrimento — Diego escutou uma voz que conhecia muito bem, e uma de suas mãos alcançou o zíper de seu casaco como por instinto. Ele espirou para dentro do quarto.


 — Não entendo como nenhum médico sabe o que está acontecendo — disse o loiro. — Você está fazendo tudo o que pode por ela, Flint.

 — Pelo menos você está aqui comigo... Queria saber aonde está o Diego. Quem sabe ela reagiria se o visse?


    O loiro sorriu para Flint antes deles irem até a janela. A visão liberou e Diego pode ver uma senhora deitada, de olhos fechados e coberta até o pescoço. Furfrou encostou a cabeça em suas mãos, recebendo um cafuné dele, mas aos poucos seu corpo descia recostado na parede. Ele abraçou os joelhos, deixando lágrimas correrem.


 — Furfrou, você acha que nós podemos fazer isso? — Diego a perguntou com o rosto cheio de lágrimas. — Ir até o Tártaro e resgatar as portas... Ajudar a vovó a descansar, encontrar a Leuri, enfrentar Pheromosa.


 — Frou... Couffrou! — Furfrou encostou a cabeça em seu peito e ele a abraçou seu rosto, respirando fundo.


 — Eu vou jogar esse jogo, Yveltal. Por favor, me guie uma vez mais pelo além-vida, até o mundo inferior.

    Os olhos de Diego acenderam em vermelho, tornando-se cegos pelo tom profundo. A cor escapou de seu rosto e sua sombra derreteu no chão, abrindo um círculo de sombras que levantaram-se como labaredas. Furfrou ergueu-se junto do garoto e ambos caminharam juntos.


    No quarto, Flint percebeu algo brilhar ao lado de fora do quarto. Ele se soltou do abraço de Volkner, correndo para o lado de fora como se esperasse encontrar alguém, mas não havia ninguém ali.

Continua

2 comentários:

  1. Ai desculpa, mas a Bertha morta me fez rir xD
    E começou a história que, sinceramente, eu tinha mais curiosidade para ver o que ia acontecer e posso dizer que AMEI!
    Comprando isto com o primeiro cap de Kitakami e pensar que os dois são escritos pela mesma pessoa revela muito da sua versatilidade para contar histórias diferentes e sem perder o seu toque único. Dá para ver que tudo o que toca, é seu, não tem como enganar.
    Eu adorei que o Diego aqui não tava dando pra ninguém. Ele sempre foi o terceiro personagem da história, mas aqui assumiu seu papel como protagonista e devo dizer que, mesmo sem o Carbink, ele conquistou.
    A história em si, as narrações, os diálogos, foi tudo muito bem estruturado e agora a sua ideia para a história começa a se desenrolar e já estou gostando do jeito com que está tratando a lore.
    Com Lana, Kitakami e Necro entramos agora numa fase que remove a típica jornada e se concentra mais na história e nas jornadas pessoais de cada personagem e eu gosto disto, a sua história cresceu e evoluiu junto de si, se recusando a ficar presa na mesmice do costume. Celestial ainda está atrasada na cronologia, mas aguardo que consiga alcançar.
    Palmas mesmo, bravo, tudo ficou mesmo muito bom. Agora cabe ao Diego fazer o que precisa para que a Bertha possa finalmente ir em paz!

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  2. Belissimo inicio de uma nova onde temos o Diego com um protagonista. To capitulo foi muito bem construído sem contar e cada hora que eu linha alguma fala ou descrição de alguma cena, sempre minha vinha alguma lembrança de algum anime ou outro e começamos a ver a jornada do Diego em busca da Leuri. Eu gostei bastante do capitulo e de como ele já começa e de como ele vai indo e ponto que destaco é o destaque maior para o Furfrou e fico muito feliz dele ter mais destaque aqui e esse capitulo me deixou bem animado pelo que vem por ai e desde já ansioso pelos próximos capitulos. #Continua

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