segunda-feira, 2 de novembro de 2026

NECRO - Capítulo 2: Engrenagem




 — O q-quê?


Steven Universe Soundtrack - Peridot (Extended)

    Diego abriu os olhos com dificuldades, incomodado pela claridade. Sua última lembrança era de abrir uma passagem pelo além-vida para o Domínio de Yveltal, com Furfrou, em sua antiga casa em Sinnoh. Geralmente, não era isso que acontecia...
    Tentou levantar o corpo, mas sentiu-se puxado para o chão como se estivesse grudado. Após mais algumas tentativas, desistiu. Analisou o ambiente onde estava, repleto de rochas negras que ganhavam contornos prateados pela forte fonte de luz que ele não conseguia entender de onde vinha. 

 — Hmmrm... — Ele escutou um gemido melodioso, rolando os olhos para os lados em busca de quem o emitiu. — Consegue imaginar como estava esse lugar antes da minha chegada?

 — Quem é você? — perguntou, sentindo sua ansiedade crescendo, tentando mais ainda se desgrudar do chão.


 — Imagine o quão lindo foi quando eu me libertei depois de tantas eras! — A voz ecoou por todos os lugares ao mesmo tempo, aumentando o brilho e forçando Diego a fechar um pouco os olhos. — Para logo em seguida me mandarem para outra prisão... Tanta beleza jamais deveria ser contida. Pelo menos, dessa vez, eu sou a guarda, não a prisioneira.


    A luz foi reduzindo aos poucos enquanto uma silhueta cada vez maior aproximava-se de Diego, que arregalou os olhos, voltando a tentar desgrudar do chão. Era uma gigantesca mulher inseto, com pernas longas usando saltos tão brilhantes como tudo que fazia parte dela.


 — Oh, deve estar por aqui, não? Esses métodos são tão antigos que já estou desacostumada. Seria muito mais eficaz se eu pudesse te trazer para cá de uma vez para uma bela diversão.

 — Você não me vê? — Diego voltou a perguntar, quando a mulher acertou um chute super rápido próximo dele, o fazendo engolir em seco. — Você é... Pheromosa.

    A mulher sibilou, recolhendo sua perna comprida. Seus movimentos tinham um som de cascalho muito específico para Diego, algo que o remetia a uma memória bonita, mas de forma perigosa. Agora conseguia ver melhor o seu rosto, possuía dois olhos largos e quase grudados sob uma coroa dourada.


 — Também estou ciente de você. Um jovem Necromante, bem mais fraco dos que eu já matei antes. Yveltal te enviou achando que pode apagar a minha beleza... Deveria ter feito uma escolha melhor! Mas eu também sei de mais algumas coisas... Como o real motivo de estar aqui. A heroína de Xerneas que procura... Sim, aquela que tanto nos estressou! Leuri, se estou certa. Um nome horrível, igual deve ser ela. Veja bem, não tive a chance de conhecê-la como Naganadel... Mas é difícil competir com alguém como eu.

    Dando uma pirueta, Pheromosa maquiou o ar com um batom de luz, criando espelhos, tecidos e quadros com o seu rosto. Diego franziu a testa. Tinha entendido que estava diante de uma narcisista maluca. Como se lesse sua mente, ela grunhiu, colocando uma mão na cintura e parando a outra por cima de seu rosto no espelho.

  — Estou certa de que não irá encontrá-la no Érebo, mas vai ser divertido vê-lo tentar. — Ela voltou-se para ele, que duvidou desta vez se conseguia ser visto. — É só um palpite, mas não acho que dure muito nesse lugar. Como vai perceber, ele não é para os vivos, mesmo aqueles que brincam com os mortos. É uma pena, porque gostaria que chegasse até onde estou. Marshadow não me deu muito trabalho... Mas heróis e suas missões são sempre divertidos, e te confesso que estou ansiosa para me exercitar um pouco. Faz um bem danado para os músculos!


    Muito rápido, Diego viu o braço de Pheromosa se esticar como uma sanfona na direção do seu rosto, como se fosse riscá-lo com aquela luz. Ele fechou os olhos com força e sentiu algo molhado em sua bochecha, até abri-los novamente e se deparar com Furfrou o lambendo.



 — Coufrou? — A poodle se afastou.

 — Estou bem, estou bem... — Diego levantou-se com uma mão na cabeça.


    Mentira. Bem estava Pheromosa, divertindo-se por ter causado o caos no Domínio dos Mortos, só esperando para arrastar a cara dele no chão e, se fosse um pouco piedosa, o acorrentasse ao lado de Marshadow para que tivesse com quem conversar no tártaro. Mas pela expressão no rosto de Furfrou, ela não parecia ter saído de uma visita ao novo cafofo de uma besta ancestral falastrona.

 — Couf... — Furfrou encolheu as orelhas e deu um pequeno pulo para trás parecendo ter levado um susto.


    Diego estranhou sua reação, mas reparou no reflexo oscilante de luz vermelha em sua palma da mão esquerda. Claro, seu corpo havia entrado em alerta depois do bate-papo com Pheromosa. Há alguns anos, quando viajou com Leuri por Hoenn, antes mesmo dela se tornar uma Campeã, frequentemente seus olhos acendiam nessa cor, mesmo quando sua vida não estava em jogo. Infelizmente, ele não ganhou visão raio-x, lasers ou algum poder legal para virar o superman.
    Ele desviou o rosto para analisar o novo ambiente, uma desculpa para não encarar a reação de sua amiga. Certamente tivera tempo o suficiente ao longo dos últimos anos para acostumar com a forma como olhavam para ele, como se estivesse se tornado um monstro por seus olhos ganharem outra cor. Como poderia julgar? Mesmo para aqueles mais próximos, não era habitual o seu amigo casualmente parecer possuído. Isso não o fazia se sentir melhor.

 — Não dá pra ver muita coisa com todo esse nevoeiro, mas tenho certeza que estamos no Érebo. Consigo sentir que há mais vida para uma direção... e que não há nada para a outra.

    Não deveria dar ouvidos para Pheromosa. Depois do exemplo de Poipole com Marnie, sabia que bestas falavam qualquer coisa para conseguirem o que queriam. Estava onde queria; o Érebo, a região de transição entre o mundo dos vivos e o dos mortos, uma camada de sombras entre a superfície da Terra e as profundezas do domínio de Yveltal. As almas passavam por lá logo após deixarem o mundo dos vivos, mas com a confusão atual, com certeza encontraria um congestionamento se prosseguisse. E, se tivesse sorte, Leuri estaria lá.

 — FROOOOU!!!

    A poodle arrepiou-se por inteira quando escutou um som agoniante e crescente parecendo vir de muito longe. Ajudem!, gemiam. Foi um acidente! A dor!, uivavam. Façam com que pare! As vozes suplicantes carregavam muita angústia. Diego não mudou sua expressão perante elas, mas cerrou os dentes ao ver sua parceira apavorada.

 — Escuta... Por que não volta para a sua Pokeball? Não acho que será uma caminhada confortável daqui em diante.

 — Couf!! Couf, coufrou! — Ela saltou para trás em protesto, justificando-se com latidos.

 — Não estou duvidando da sua coragem, mas se um de nós puder poupar suas energias para o que devemos enfrentar, já vai ser alguma vantagem. — Ele levantou a Love Ball. Furfrou sentou-se claramente desgostante, mesmo que seus pelos escondessem sua expressão. — Vou entender que consegui te convencer. Retorne, Furfrou.

    O brilho vermelho e o som do regresso de Furfrou para aquela esfera que carregava há tanto tempo consigo poderia ter durado mais. Por alguns segundos, se manteve no mesmo lugar, virando a capsula para seu rosto. As lamentações das almas distantes reverberaram por seus ouvidos, e assim fechou os olhos. Não conseguia diferenciá-las de seus pensamentos nesse momento. Inspirou o ar antigo daquele lugar e expirou, abrindo os olhos completamente castanhos. Como se estivesse o esperando agir, o nevoeiro escuro vacilou, mostrando o caminho que deveria seguir.


 — Muito bem... Leuri, aqui vou eu.

Steven Universe - The Working Dead Instrumental

    Para compensar o som das almas em lamento ter ficado mais alto, o nevoeiro foi assentando-se pelos cantos do que se revelava um vale grande o bastante para abrigar a cidade de Lumiose. Sob as nuvens tóxicas, o terreno aberto tinha um brilho de cristais azuis e rosas, com cicatrizes escuras vermelhas e pretas que o lembravam do corpo de Yveltal. De certa forma, aquele lugar deveria ser uma extensão do poder dele.

 — Ajuuude! — Diego quase puxou uma Pokeball quando um vulto azul passou se arrastando à sua frente.

    Tinha a aparência de um homem de armadura despedaçada, mas as feições estavam desfiguradas. Provavelmente, aquele fantasma era de outra época, e estava extremamente confuso. Juntava-se a uma infinidade de outras almas balbuciantes, com corpos esfumaçados que atravessavam-se como se não pudessem se ver. Não saberia o que sentiria se encontrasse Leuri assim nesse estado de torpor.

 — Ah... Licença — Diego tentava se enfiar entre os fantasmas para prosseguir, mas eram tantos que não conseguiu evitar atravessá-los. — Desculpa, eu acho.

    Fantasmas já não eram novidade para Diego há anos. Embora tivesse evitado ao máximo pisar no Domínio dos Mortos, o outro lado nunca fez questão de desviar do seu caminho. Ele sempre se sentira assombrado pelas memórias dos pais falecidos num acidente de avião, mas acumulara encontros marcantes com o sobrenatural ao longo do tempo. Descobrira que os mortos não eram exatamente previsíveis: alguns, presos a pendências antigas, ancoravam-se ao mundo dos vivos por eras, como o Capitão Malie no Sea Mauville.


    Outros retornavam na forma de Pokemon, ainda nutrindo desejos da época em que respiravam, feito o Duskull que habitava a Pokédex de Brendan.


    Alguns já o haviam auxiliado, outros só atrapalharam... Mas ali, no Érebo, o cenário era completamente outro: estavam todos desgovernados, multiplicando-se em uma multidão sem fim.

 — Não, eu não sei quem é essa Ygona! — Diego escutou uma voz firme seguida de um som metálico de espada sendo erguida.


    Entre as almas desesperadas, dois cavaleiros de armaduras roxas com espadas flamejantes tentavam organizá-las. Suas lâminas acendiam-se com chamas espectrais e o calor atraía muitos fantasmas para a direção indicada, mas estava impossível manter uma ordem.


 — Ygooona, a rainha, Ygooona — os fantasmas repetiam quando um dos cavaleiros os atravessou com sua lâmina, fazendo todas aquelas almas arderem.


    Diego piscou rápido com a cena. As almas ardiam em chamas roxas crepitantes e desapareciam sem deixar nem fumaça. O cavaleiro assoprou sua lâmina, dando-se por satisfeito, mas logo outros fantasmas se amontaram ao redor deles.

 — Por favor, por favor — suplicou o fantasma de uma senhora com uma coroa. — Rainha... 

 — Essa eu acho que conheço, ela demorou pra chegar — disse o outro cavaleiro.

 — Rainha? — perguntou-se a fantasma, hesitando por alguns instantes. — Por favor, por favor!

 — São tão irritantes!

 — Sempre foram...

 — Não podemos só queimar todas?

 — Não é assim que funciona.

 — Malditas regras! Deveriam haver exceções para situações como essa. — O cavaleiro mais sem paciência acendeu novamente sua lâmina, sinalizando uma nova fila. — Não importa se você foi uma rainha, aguarde a sua vez como todas as outras!

    Entre todos aqueles fantasmas de eras diferentes, os olhos de Diego varriam cada rosto que passava. Aquele cabelo... Não. A altura... Também não. Uma alma em formato de garota passou a poucos metros dele, flutuando baixo, mas ao se aproximar revelou ser apenas uma desconhecida chorando em silêncio. A frustração subiu pelo peito do garoto como uma fisgada. Ele deu mais alguns passos, desviando de um guarda que foi empurrado para trás pela pressão da multidão.


 — Riko? — Diego levantou a sobrancelha ao ver a protagonista de Pokemon Horizons entre as almas. — Você morreu?


 — Ai, depende da temporada que você tá assistindo...

    A confusão das almas estava se tornando um bloqueio físico e Diego via-se num labirinto, não conseguindo nem ver o caminho para fora dali. Almas presas começaram a se projetar contra seu corpo, sentindo o calor do seu sangue e tentando se agarrar à sua vitalidade. O frio das sombras encostando em sua pele e a atravessando fez seus braços formigarem, cada vez mais ficava mais lento.

 — Me ajuda... — Uma sombra com mãos disformes avançou na direção do seu rosto de supetão.

 — Ah... — Diego sentiu sua força se esvaindo, seus olhos começaram a rolar para trás e sua pele empalidecia, quando...



    As almas ao seu redor crepitaram em chamas roxas, ardendo em agonia até desaparecerem completamente. O garoto caiu sentado, recuperando sua cor. Ao olhar para cima, um dos guardas o encarava. Seu olhar era bastante ameaçador, com chamas ardendo por cima dos olhos vazados pelo capacete.


 — O que você faz aqui? — Ele o perguntou.

 — Estou em busca de uma amiga, o nome dela é Leuri e...

 — Viva ou morta? — O guarda o interrompeu, ardendo uma das lâminas.


    Aquela pergunta o atingiu quase como se ele pudesse sentir seu corpo queimando como as almas que foram incineradas. Morta, provavelmente, era a melhor resposta. Mas isso significaria...

 — Eu não sei — decidiu. — Ela é uma heroína de Xerneas, talvez isso a diferencie dos outros?


 — Uma heroína? Se for o caso, ela já deve ter feito a travessia. Heróis sempre chegam com uma moeda para o Gholdengo. Você também vai atravessar?

    Gholdengo... Conhecia aquele nome de algum lugar. Mas se aquele soldado de fogo fosse confiável, talvez Pheromosa não estivesse mentindo. Leuri não estaria entre a multidão de almas, e sua melhor possibilidade de encontrá-la era seguir o que Yveltal o indicou a fazer.

 — Como faço para atravessar?


 — Entra na fila, espera sua vez e entregue sua moeda para Gholdengo o levar pelo rio.

    O guarda apontou para onde era o fim da fila, mas Diego só conseguia ver as almas amontoadas. Aquilo levaria a eternidade, literalmente.

 — Hum... E onde fica esse rio?

 — O Aqueronte fica logo a frente, seguindo a fila — o guarda apontou novamente a direção. — Agora, vá aguardar sua vez e se puder impedir que essas almas insuportáveis venham me atazanar, eu ficaria grato.

 — Certo... — Diego sorriu, mas não saiu do lugar.


Full Speed Ahead (Instrumental) - EPIC: The Musical

    O guarda parecia aguardá-lo para voltar ao seu serviço de organizar a fila e incinerar aqueles que o estressassem mais do que ele considerava aceitável. Diego começou a dar passos para trás, sem se virar, enquanto sua mão buscava algo de dentro do bolso do casaco.


    O feixe de luz saiu do bolso e se materializou de surpresa na frente do guarda que entrou em alerta. Medicham levitava em sua pose de meditação, ainda de olhos fechados.


 — O que é isso? — O outro guarda percebeu a movimentação.


 — Desculpe, eu não posso esperar todo esse tempo! — Diego pediu antes de esticar o braço. — Zen Headbutt!


    Medicham abriu os olhos, que acenderam-se em rosa. Ele deixou sua pose de meditação muito rápido, investindo contra o guarda, envolto em seu poder psíquico. Com uma cabeçada, o atirou para trás, abrindo caminho para Diego passar correndo.


    A armadura do guarda rachou, desprendendo pedaços e deixando mais chamas escaparem. Ele se levantou e viu Diego e Medicham correndo.


    Com sua lâmina se desfazendo em sombras em formato de garras púrpuras, o outro guarda saltou para a frente de Diego, que só não foi atingido porque Medicham o impediu de continuar avançando.


    Por trás dele, o outro guarda da armadura quebrada subiu de um fluxo de sombras. Estavam encurralados e uma luta seria inevitável. Diego sentiu seu pulso aquecendo e percebeu a Key Stone acesa. Medicham também olhava para ele de canto de olho, tendo a mesma sensação.


    Adiante estava o Rio Aqueronte, onde almas daqueles que não conseguiam pagar para atravessar estavam submersas em sofrimento. Toda aquela energia mórbida parecia reagir com a conexão entre a Key e a Mega Stone.

 — Medicham! — Diego chamou pelo companheiro, encostando em sua Key Stone. — Mega Evolua!


    A conexão entre as pedras chamou pela energia de morte do rio e se aglomerou ao redor de Medicham ao mesmo tempo que os olhos de Diego se acendiam em vermelho. O Pokemon alterou sua forma enquanto o símbolo da Mega Evolução refletia por cima dele, e seus novos braços apareceram.


    Os dois guardas não esperaram e investiram com suas lâminas incendiárias, cada um por um lado.


 — Medi!

    Apedra em sua testa acendeu num pulsar psíquico e Medicham canalizou seu poder psíquico ao juntar as palmas das mãos. Ao separá-las, aquele poder envolveu os corpos dos guardas, roubando a força de seus movimentos ao paralisá-los no ar.


 — Não vai causar mais desordem! — O guarda mais estressado da armadura quebrada, mesmo parado no ar, inflamou suas duas lâminas e usou toda a sua força para bater os braços, enviando as chamas para cima de Medicham.

    Para desviar, Medicham abriu mão do controle, soltando os dois guardas que caíram já prontos para avançar e atacá-lo. Suas lâminas inflamaram, crepitando com aquelas chamas que fizeram almas desaparecerem num piscar de olhos. Diego estreitou o olhar, não suportando pensar que o mesmo poderia acontecer com seu Pokemon. Não perderia mais ninguém. Suas mãos se fecharam com aqueles pensamentos e ao redor de seu corpo o calor ficou visível numa mescla de vermelho e preto. Seus olhos tornaram-se cegos naquela cor profunda e ele jogou o corpo pra frente, abrindo a boca para baixo com os dentes de cima roçando nos de baixo.



 — NÃO ENCOSTEM NELE!


    Aquele calor se propagou como sua aura escura, envolvendo o ambiente e novamente paralisando os dois guardas, que agora caíram de joelhos. As chamas iam diminuindo e seus olhos se fechavam enquanto a Dark Aura absorvia suas vitalidades.


 — Medicham! — O psíquico movimentou seus braços para agarrar nos ombros de Diego e lançou o corpo na direção dele para se aproximar. — Mediii!

    O pensamento de que aqueles guardas estavam apenas cumprindo seu trabalho lutava contra a vontade que Diego tinha de roubá-los suas vidas, mesmo que pudessem se recuperar logo por conta da situação das portas da morte. Descontar neles a dor de todas as suas perdas, retirando suas vidas como a de Leuri foi retirada...


 — Ah! — Diego piscou rápido quando Medicham espremeu seu rosto, o fazendo cessar a manifestação de Dark Aura. Ele olhou para suas mãos que ainda soltavam uma fumaça negra, e depois para os guardas caídos no chão. — Medicham, obrigado... Eu quase fui longe demais.


 — Medi — ele disse, voltando a sua forma habitual.


    Temendo que os guardas se recuperassem logo e viessem atrás dele, Diego continuou a correr com Medicham, seguindo a fila de almas. Via fantasmas de pessoas que morreram de todas as formas, com espadas cravadas no peito, olhos faltando, queimaduras, roupas de hospital... As imagens aos poucos iam o aterrorizando pela ideia de tornar-se uma delas e ficar piando como os Noibat das noites de Kalos. Como poderiam carregar as marcas de como morreram, mas não conseguirem lembrar de nada de suas vidas?


    Medicham alertou Diego, que se deu conta de que estava perto do rio. Pararam de correr ao chegarem até sua margem, vendo as águas turvas. Podia jurar que viu um rosto, quando este saltou da água e tentou agarrá-lo, mas foi puxado de volta com um chiado de agonia.


    Nas águas do Rio Aqueronte, almas giravam num círculo até suas profundezas. Os corpos daqueles angustiados pareciam orientar o fluxo do rio como roupas girando na máquina de lavar, com a diferença de que a água era verde e do contexto sombrio.

 — Se afaste daí! — Diego escutou uma voz preocupada e olhou para a direção de onde ela veio.

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    Um garoto com cabelos até os ombros, de tons de loiro sem vida quase marrons, estava de pé próximo dele. Um de seus olhos estava escondido pela longa franja que caía sobre ele. Também era bem pálido e usava um uniforme surrado bem formal como os de colegiais antigos.

 — É-é perigoso! — Ele hesitou, parecendo assustado.

 — E o que não é perigoso por aqui, né? — Diego colocou uma mão na cintura, sorrindo de cansaço. O garoto pareceu perder um pouco da timidez com isso, mas...

 — Ai! — Diego foi derrubado por algo que saltou em sua cara, mas diferente das almas, esse tinha matéria física.


 — Gruuau! — Entre lambidas, Diego conseguiu ver um cachorro com muitos pelos cobrindo os olhos, um focinho comprido e uma vela na cabeça. Tudo normal por aqui.


 — Medi? — Medicham se abaixou perto do cachorro, que agora saltou para o seus braços, também o lambendo.


 — Hahaha... — Diego enxugou o rosto com a manga do casaco, bocejando logo a seguir. — Nossa, mas... Que cansaço...


 — Medi... — Medicham cambaleou, apoiando-se no chão com uma mão.


 — Desculpem o Bochi — pediu o garoto, pegando-o no colo. — Ele acaba consumindo a vitalidade de quem brinca com ele...

 — Descanse um pouco, Medicham — Diego disse, regressando-o para sua Great Ball. — É um Greavard, não é? Nunca vi um pessoalmente.


 — É sim — o garoto disse entre lambidas do cachorro Bochi. — Esse é o Rio Aqueronte, o rio da dor. Sua água tem o mesmo poder dos Greavard, só que age mais rápido. Sua vida seria sugada num piscar de olhos se encostasse nela.


 — Nadar está fora de questão, então... Aonde está o Gholdengo que faz a travessia?

    O garoto e Bochi o acompanharam até uma pequena ponte sobre o rio, onde várias almas estavam amontoadas piando ainda mais alto. Aquele com certeza era o começo da fila, e lá estava um ser feito inteiramente de ouro, com uma pochete em formato de baú amarrada na cintura.

 — Me deixem em paz! Eu não ganho pra isso!! — Gholdengo reclamava, afastando as almas com o brilho de seu ouro. — Maldito emprego!


 — Aquele é o Gholdengo, também chamado em muitos textos como Caronte — O garoto explicou, apontando para o homem de ouro. — O barco de ouro dele é o único capaz de atravessar, se você o puder pagar com um óbulo. 


 — A moeda, quer dizer? — Arven assentiu. — Entendi...

    Diego estava com algo em mente desde que ouviu do guarda sobre atravessar o rio...


 — Isso... isso os levará pelo mar de magma que os espera. — Heatran explicou, enquanto Diego, Leuri, Carbink e Calyrex estavam muito surpresos. — Um barco feito na forja de meu filho, com as auras de vocês dois unidas. É um presente valioso.

    Diego olhou para o barco, que emanava um brilho quente, mas não abrasivo. Era impressionante, formado por uma estrutura sólida, mas com flexibilidade suficiente para resistir ao calor intenso que os cercava. Tinha uma vela com um X azul e um Y vermelho em cada parte.

    Após saírem da forja de Melmetal graças a ajuda de Heatran, o barco havia se transformado numa miniatura dentro de uma garrafa tampada por uma rolha. Diego havia guardado consigo para honrar o presente, mas não sabia se valia arriscar naquele rio.


 — Vou conversar com ele!


 — E-Espera!! — o garoto de franja longa tentou avisar, estendendo a mão. — Ele tá surtando!


 — Gruuu-f!! — Bochi latiu da margem, balançando a vela na cabeça.

    Diego não deu ouvidos. Ele deu passos firmes até a borda da ponte de pedra. Lá embaixo, no barco de ouro amarrado à margem do rio de águas turvas, Gholdengo gesticulava de forma descontrolada para a multidão de almas que tentava pular na embarcação.


 — Pra trás! Eu já disse pra ficarem pra trás, seus fantasmas falidos! — a voz de Gholdengo saía estridente, ressoando com o tilintar de centenas de moedas batendo umas nas outras. — Eu não ganho pra isso! Yveltal está lá em cima no bem-bom e eu aqui, milênios sem um único ajuste de comissão, atendendo essa fila interminável! Ninguém tem um óbulo! Ninguém tem nada! Chega!


 — Licença — Diego chamou, cortando a reclamação dele. — Eu preciso muito fazer a travessia, estou tentando chegar até o Tártaro.


    Gholdengo parou o surto por um segundo. A cabeça de moedas girou devagar na direção de Diego. Seu olhar percorreu o garoto da gola alta do casaco até as botas cobertas de poeira cinzenta. Ele deu uma fungada profunda no ar e seus olhos de linha preta se esbugalharam.


 — Você... você tá vivo?! — Gholdengo gritou, as mãos metálicas indo parar na cintura onde ficava seu baú. — Ficou maluco?! Vivos não sobem no meu barco! Nem com o pagamento adiantado!! Ainda mais um vivo querendo ir para o Tártaro... É cada um que me aparece, e o salário, ó!

    Cara chato, Diego pensou. Passou a mochila para frente do corpo e tirou a garrafa de vidro transparente. Dentro dela, a miniatura do barco presenteado por Heatran emanava um brilho quente. Na falta de opção, valia tentar.


 — Sendo assim — disse Diego, desfazendo a rolha para libertar a embarcação. — Eu tenho meu próprio barco.


 — Espera! — o garoto de uniforme surrado correu até o lado dele na ponte, olhando assustado para a garrafa.

 

 — Você de novo? — Gholdengo cruzou os braços, impaciente ao vê-lo.

    Antes que Diego pudesse contestar, um respingo da água verde do Aqueronte atingiu a gargalo da garrafa. O vidro estalou e começou a desgastar instantaneamente, soltando uma fumaça ácida. Diego fechou a rolha às pressas, guardando a garrafa de volta na mochila antes que a magia de Heatran fosse destruída.


 — Viu só, seu vivo petulante?! — Gholdengo debochou, gargalhando com um som de trocados caindo num cofre. — Essa banheira derrete no primeiro metro! Só o meu ouro aguenta essa acidez! E eu ainda estou trabalhando, não posso deixar que faça a travessia.

 — Eu não tenho tempo para essa burocracia — Diego rosnou. — O próprio Yveltal me enviou aqui!


 — Uh? — O garoto ao lado dele baixou os ombros, e Bochi deu pulinhos.


 — Ah, ele enviou você?! — Gholdengo surtou de vez. — Ele faz as regras e ele as quebra! Não posso aceitar isso, é muito desrespeito com o meu trabalho!!


    Tomado pela raiva corporativa de milênios de exploração, Gholdengo deu um giro violento sobre o próprio eixo. O baú em sua cintura brilhou e uma tempestade de sombras e moedas douradas disparou como projéteis na direção da ponte.


 — Cuidado! — O garoto loiro alertou, e Diego jogou-se para trás.


    As moedas de ouro rasgaram o ar com estalos secos, atingindo as pedras da ponte e fazendo dezenas de almas que observavam evaporarem em gritos mudos. Diego rolou pelo chão e se ergueu rapidamente, os olhos acendendo em vermelho, pronto para invocar a Dark Aura e massacrar a criatura de ouro. Mas, ao olhar para ele, travou.


    Gholdengo não estava lutando como os guardas de antes. Ele estava encolhido no barco, arquejando, com as mãos de moedas cobrindo a cabeça. O baú em sua cintura estava completamente vazio, sem um único óbulo acumulado, e o brilho do seu ouro parecia opaco, desgastado pela poeira do Érebo.


 — Milênios... — Gholdengo resmungava sozinho, a voz falhando no meio do tique-taque metálico. — Sem bônus, sem descanso, sem reconhecimento... E ainda me jogam um apocalipse desses, com mais almas do que nunca, meu trabalho todo em vão...

    Diego piscou. A fúria em seus olhos vermelhos passou. Ele conhecia exatamente aquele tipo de colapso. Tinha acabado de ver o próprio Yveltal tendo o mesmo surto no salão de diamantes. Lentamente, desfez a postura de combate e abaixou as mãos.


 — Yveltal é um péssimo chefe, né?

    Gholdengo parou de resmungar. Ele tirou uma das mãos de moedas do rosto e olhou para Diego com desconfiança.


 — O quê?


 — O Yveltal — Diego deu mais um passo à frente na ponte, cruzando os braços. — Ele está parado, chorando porque o Xerneas vai debochar dele, enquanto você tá aqui lidando com o desespero de milênios de almas e trabalhando de graça porque o ceifador foi capturado.

    Gholdengo ajeitou a postura no barco, surpreso por alguém ter resumido sua dor com tanta precisão.


 — É... é exatamente isso! — ele gesticulou, indignado. — Ninguém lembra do velho Caronte! Ninguém pergunta "como vai o Caronte?"! Só querem a travessia!


 — Pois é — Diego continuou. — Acontece que eu sou um Necromante, aparentemente. Um herói de Yveltal. O próprio me mandou aqui pra resolver a bagunça do Tártaro. Se você me atravessar, assim que eu resgatar as Portas da Morte e encontrar quem eu procuro, vou voltar até o salão dele. E a primeira coisa que vou exigir é um aumento de comissão pra você. Um bônus direto da tesouraria do submundo.

    Gholdengo ficou em silêncio por longos segundos. Ele olhou para Diego, depois para a aura de sombras que ainda flutuava discretamente no casaco do garoto, e por fim para o baú vazio em sua cintura. A promessa de um herói vivo valia consideravelmente mais do que os óbulos inexistentes das almas falidas.


 — Um bônus... com participação nos lucros das almas nobres? — Gholdengo negociou, estreitando os olhos de linha.


 — E folga aos domingos — Diego completou, sem piscar.

    Gholdengo bateu as palmas de moedas com um som agudo de celebração.


 — Suba logo antes que eu mude de ideia e resolva cobrar o dobro! — o barqueiro de ouro berrou, apontando para o convés.


    Atrás de Diego, o garoto soltou o ar que nem sabia que estava segurando, olhando para ele com os olhos arregalados.

 — Você acabou de negociar com o barqueiro da morte usando uma reclamação trabalhista.

 — Eu não tinha dinheiro — Diego respondeu, pulando para dentro do barco de ouro. — Foi um prazer!


 — Espera! — O garoto esticou a mão na direção dele. — Eu... Posso ir com você? Bochi e eu estamos tentando atravessar há muito tempo...

    Diego sorriu e o barco de Gholdengo aumentou de tamanho, adicionando mais dois lugares. O garoto e seu Greavard se olharam felizes e saltaram para o barco. Caronte suspirou, já se arrependendo, e empurrou a margem com um longo remo de bronze, e o barco deslizou suavemente pelas águas turvas do Aqueronte.

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    Conforme se afastavam da margem tumultuada, o barulho das almas na fila foi diminuindo, substituído pelo som viscoso da água batendo no casco de ouro. A névoa sobre o rio era ainda mais fria, e o vapor verde que subia da superfície trazia um arrepio incômodo.


 — O Aqueronte é o rio da dor e do esquecimento — Gholdengo comentou enquanto remava com ritmo constante. — As águas absorvem a dor de quem cai nelas, mas também apagam quem a pessoa era. O lamento vai embora, mas a memória vai junto. Se caírem aí, não sobra nada.


    Diego encarou a água verde-escura por alguns segundos. Ficou pensando em quantos daqueles vultos na margem já haviam esquecido a própria voz, o próprio rosto, presos no reflexo do momento em que morreram. Se a morte quebrada tirava o descanso das pessoas, o que sobrava delas afinal?
    Sentiu seu estômago roncar baixo, cortando o pensamento. Ele abriu a mochila e puxou um par de sanduíches envoltos em papel-alumínio que havia preparado antes de toda aquela loucura começar.

 — Quer um? — Diego ofereceu, estendendo um dos sanduíches.

    O loiro olhou para o alimento, depois para o vapor verde do rio, e balançou a cabeça devagar, esboçando um sorriso fraco.


 — Obrigado, mas estou totalmente sem fome...


 — A propósito... como você veio parar aqui?


 — Eu me chamo Arven — o garoto se apresentou, abraçando os próprios joelhos. — Eu não sei bem o que aconteceu, mas eu vi uma fenda e... apareci aqui. Eu só quero achar um jeito de voltar pra casa.


 — Enquanto as Portas da Morte estiverem acorrentadas no Tártaro, você e eu não conseguiremos sair daqui... — Diego respondeu entre as mordidas. — E entre os vivos, pessoas que deveriam estar descansando estão presas em coma ou sofrendo na superfície, sem conseguir ir embora.

    Diego pensou na avó deitada na cama em Sinnoh. A busca dele pela Leuri de repente parecia cruzar a linha com o sofrimento de quem precisava daquele portão fechado para descansar.
    Arven olhou para Diego com uma mistura de respeito e preocupação.


 — E você... por que tá descendo até o Tártaro? Não me parece que seja só porque o Yveltal mandou.

    Diego parou de mastigar por um instante. Ele olhou para a névoa cobrindo o horizonte à frente, onde a escuridão parecia ficar cada vez mais densa. Enfiou a mão nos bolsos do casaco, sentindo o calor.


 — Meu nome é Diego — ele disse, a voz baixando um tom. — Estou procurando uma pessoa. O nome dela é Leuri... Ela não deveria estar aqui. Yveltal vai me ajudar a encontrá-la se as Portas forem restauradas.

    Arven encarou Diego em silêncio por um momento, absorvendo a gravidade nos olhos dele, antes de soltar uma pergunta baixa.


 — E se você achar a alma dela... — Diego levantou o olhar. Não havia mencionado que ela morreu, mas Arven pareceu entender logo. — E esse lugar já tiver apagado quem ela era? Você traz ela de volta mesmo assim?

    Diego não respondeu de imediato. Ele apertou as mãos nos bolsos com tanta força que os nós dos dedos empalideceram. A pergunta do Arven ficou suspensa no ar, ecoando com o barulho das remadas de Gholdengo.


 — Eu vou até o fim — disse Diego por fim, sem encarar Arven, mantendo os olhos cravados no abismo que se aproximava.

    Arven assentiu devagar, entendendo que o peso que Diego carregava era grande demais para ser discutido em poucas palavras.


 — Então tá — Arven disse. — Tenho conhecimento sobre esse lugar que pode te ser útil. Façamos assim, eu te ajudo a achar as Portas e a sua amiga, e você me ajuda a sair daqui.

    Diego sorriu de canto. Arven o lembrava seus amigos. Guardou o resto do papel-alumínio no bolso e encarou o breu que se adensava. O barco de ouro de Caronte continuou cortando as águas do Aqueronte, levando os dois cada vez mais fundo na direção do coração do submundo.

Continua

2 comentários:

  1. E veio ai o segundo capitulo de Necro <3
    To amando essa nova história, mesmo com o Diego de protagonista… eu sei, nem eu acreditei quando li, mas é verdade.
    Adoro como transita entre a seriedade e obsessão do Diego para o humor e as piadas que são tanto a sua característica <3
    As descrições de tudo estavam otimas, como sempre e as imagens providenciaram uma aura extra, deixando tudo visualmente muito bonito.
    Não sei, mas fiquei com uma pulga atrás da orelha com o Arven, ele não me inspira muita confiança. O não ter fome, ter vindo parar ali “numa fenda” e conhecer o local sem nunca ter atravessado o rio me deixa desconfiada. Also ele supondo que Leuri pode já não ser quem era me deu a entender que ele sabe do que fala. Ou está em busca de alguém que perdeu a memória, ou conhece alguém que perdeu a memória ou ele mesmo entrou no rio e não sabe quem é… teorias.
    A batalha com os Ceruledge foi muito boa e o Diego quase os roubando a vida mostrou muito bem o nível de obsessão. Imagino que a frustração de não encontrar Leuri o leve a ir longe demais algum dia… mesmo que ninguém morra no momento.
    Também adorei as personalidades da Pheromosa e do Gholdengo. As imagens e as falas do Gholdengo me fazem lembrar os filmes da Disney, tipo Hércules. Ficou perfeito <3
    Mais um capítulo incrível, estou bastante curiosa para ver onde isto vai parar, a lore está fenomenal.

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  2. Capitulo muito bom e vou tentar resumidamente (por que o PC precisa dar uma esfriadinha por causa do calor) Eu gostei bastante do capitulo de da saga do Diego pra salvar a Leuri. Tenho gostado de como você consegue encaixar as falas engraçadas em um momento série. E do nada ainda tivemos a Liko e descobrimos que o Diego assistia Horizontes. A batalha conta os guardiões Ceruledge foi muito boa, cada capitulo de cada fanfic que você escreve suas batalhas ficam cada vez melhores e esse Arven parece um cara bacana, mas tenho as minhas duvidas, mas resumindo o capitulo estava maravilhoso e ansioso pelo próximo :3

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