quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Capítulo 2: Travessia do Mar.


    Um verdadeiro paraíso de conto de fadas. Esta poderia ser uma forma de descrever esse lugar além de prados cor-de-rosa, atravessados por rios de uma coloração quase cósmica de lilás, um reino encostado numa montanha prateada de contornos de ouro. Lá erguia-se o enorme castelo no coração do reino onírico, o Sonhar.

     Conectado por pontes de bronze de diferentes inclinações, todas as estruturas de seu exterior eram feitas de mármore, colunadas e brancas, colaborando para reafirmar a imagem da nobreza daquela que governava este reino, a Deusa dos Sonhos e dos Pesadelos.


    Bom... Ao menos era assim que deveria ser, mas as coisas estavam diferentes. Várias partes do reino estavam esburacadas para um vazio infinito como se o próprio tecido do mundo estivesse rasgado. No castelo, algumas colunas apresentavam rachaduras e as paredes de marfim tinham falhas inexplicáveis. Através delas, a névoa dos sonhos cor-de-rosa se esvaía em direção ao céu.


 — Então, Raquele... Eu falo ou você fala? — sussurrou o que parecia um Pokemon humanoide semelhante a Tangrowth, mas com vinhas grisalhas na cabeça, óculos pendurados no pescoço, uma barriga saliente e botas verdes com sinos.


 — Ela não vai querer escutar agora, com certeza — a mulher negra de cabelos longos trançados respondeu no mesmo tom. Usava um grande vestido rosa com formas de cupcakes que mexiam-se de um lado para o outro sem parar. — Talvez se for Aarune...

    No centro do salão principal do castelo, a Deusa Lunala pairava diante de uma fissura aberta no mármore. Névoa rósea escapava da rachadura como sangue de uma ferida. Raquele já tinha perdido as contas de quantas vezes a observou repetir o mesmo processo nas últimas horas.


    Lunala ergueu suas asas e uma luz prateada inundou o salão. As rachaduras se fecharam apenas para se abrirem novamente segundos depois. O silêncio que veio a seguir pareceu mais perigoso que sua tentativa fracassada.


 — Está claro que aconteceu algo além dos poderes dela! — disse um dos três pequenos peixes coloridos, o cor-de-rosa.


 — Este reino é literalmente uma extensão da existência dela, como ela pode não conseguir consertar esses buracos? — O peixe amarelo, o maior dos três, levantou as nadadeiras.


 — Não falem alto, seus idiotas! Vão irritá-la! — O menor dos três, o laranja, quase gritou se lançando nos outros dois.

    Todos olharam diretamente para Lunala após o tom de voz do último peixe. A Deusa já era conhecida por seu temperamento complicado e pela teimosia, mas numa situação atípica como essa que ameaçava seu Domínio, era aterrorizante pensar em irritá-la ainda mais.


 — Eu posso ouvi-los mesmo quando sussurram, Tatsugiris — ela disse, voando para seu trono lunar de mármore. — Arrrh... Já deveria estar resolvido... Mesmo sem os guardiões, são apenas rasgos no tecido onírico. 

    Raquele recolheu os lábios para dentro da boca. Sua expressão quase evocava o que estava pensando. Como algo poderia ameaçar aquele lugar a ponto de não poder ser reparado pelos poderes de quem o construiu? Quase pulou com o susto quando o portão pesado do salão se abriu e as vozes de uma multidão invadiram o espaço.
    Aarune, o fazendeiro errante que viajava pelo mundo desperto, entrou apressado. Empurrou o portão com as costas para conseguir fechá-lo e limpou o suor da testa, mas ajeitou a postura rapidamente ao ver que uma reunião acontecia. Aquele era o braço direito de Lunala, embora ela não admitisse, todos o enxergavam assim.


 — Finalmente! O que descobriu? Conte a ela! — disse o Tatsugiri amarelo.


 — Minha Deusa, lamento pela situação — Aarune retirou o chapéu, o levando ao peito e se curvando. — Estive com Tapu Lele no mundo desperto antes dela ser consumida pela besta. Não haviam sinais de um ataque ao Sonhar durante o eclipse...

 — Relate os fatos, Aarune
— Lunala o interrompeu. — Não as ausências. Está claro que foi algo calculado. Guzzlord atacou quando as barreiras entre os mundos estavam enfraquecidas, isso não foi coincidência.

    Enquanto a Deusa falava, a névoa dos sonhos reorganizava-se ilustrando a situação; as formas dos guardiões transformando-se em talismãs perdidos no vácuo do estômago da besta. O Tatsugiri laranja recolheu-se com a lembrança da batalha anterior. Guzzlord facilmente poderia ser um dos pesadelos dos mais barra pesada que Lunala já criou.

 — Bem... Além dos quatro guardiões, outros arcanos e entidades que habitam o reino podem ter sido consumidos ou partido para o mundo desperto em fuga — Aarune acrescentou, e Lunala fechou os olhos. — Eu cuidarei de fazer um novo censo para entendermos melhor. Enquanto isso, se puder consertar os vazamentos da névoa, talvez acalmaria os...


    Aarune interrompeu-se ao ver a expressão de Raquele e os outros, sinalizando sutilmente para ele ficar quieto.

 — Azul das Vinhas
 — Lunala referiu-se ao Tangrowth, que arrepiou-se e endireitou a postura. — Quais são as notícias das terras vizinhas?


 — Soube por uma alma fugitiva que o domínio de seu irmão foi invadido por outra besta pouco antes do ataque de Guzzlord, minha Deusa
— ele curvou-se. — Os mortais terão problemas se algo não for feito rápido.


 — Para cuidar disso, ele descumpriu o acordo e tornou um mortal em seu herói
— Lunala levantou voo, passeando pelo teto do castelo, onde um vitral vermelho de Y acendeu-se conectado por pontinhos luminosos como uma constelação. — E... Nada sobre Solgaleo?

 — Nenhuma notícia do soberano dos sonhos despertos.


 — Pela situação que o reino dele se encontra, é questão de tempo até que seja o próximo — Lunala aproximou-se de outro vitral, acendendo em laranja com o símbolo do sol de Solgaleo. — Aarune, faça o novo censo e avalie os danos. Os demais arcanos, mantenham suas funções. Não há motivos para desespero.

    O que poderia ser mais desesperador que o reino onírico se desfazendo e Lunala não conseguindo fazer nada a respeito? Raquele, Azul das Vinhas e os Tatsugiris pensaram no mesmo. Eles trocaram olhares preocupados, mas não se opuseram.


 — Eu preciso pensar
— ela continuou, ainda de costas para todos.

    Os portões abriram-se uma vez mais, mas o som da multidão cessou. Quando fecharam-se novamente, Lunala soube que estava sozinha.


    A Deusa voou pelos vitrais de seu castelo. Todos continham símbolos diferentes, cada um representando os mais poderosos em sua família, os chamados 12 maiores. Há muito tempo, eles compreenderam as consequências de se envolverem diretamente com a humanidade. Traições, loucura, guerras... Lunala não conseguia compreender como a maior parte deles ainda assim não conseguia evitar de fazer isso.


    Como a Deusa dos Sonhos e Pesadelos, Lunala exercia sua função rigorosamente desde os primórdios. Diferente dos outros grandes deuses, ela não influenciava nenhum mortal a adorá-la ou temê-la. Sem grandes templos no mundo desperto, sem esculturas preservadas ou pinturas lembradas... E principalmente, sem heróis proclamados. Era melhor assim, mantendo seu voto de distanciamento eterno da humanidade, para que continuasse a cumprir o seu papel com eficiência.


    Apesar de ter origem comum a de Yveltal e Solgaleo, Lunala era a personificação do Sonhar e tinha plena consciência de que isso a diferenciava. Fundamentalmente, deveria se manter sozinha executando sua função, esta era a sua natureza, afinal. 
Mantinha seu reino operando sob uma divisão rígida de tarefas. Seu papel principal e exclusivo era o de moldar as formas e vozes mortais no plano onírico; caso contrário, todos enlouqueceriam com a enxurrada de imagens abstratas que mentes frágeis jamais conseguiriam processar.

    Havia uma ironia em sua existência que com certeza nenhuma outra divindade poderia compreender. Lunala mantinha-se fisicamente distante dos humanos, mas tinha noção que conhecia o inconsciente de cada um deles com uma intimidade assustadora. Todas as noites, os mortais despem-se de suas armaduras no mundo desperto e entregam-se indefesos ao seu domínio. Ela caminha por suas memórias mais profundas, seus medos mais vergonhosos e seus desejos mais puros. Lunala se entendia como uma confidente eterna de uma raça que a esquece completamente assim que o sol nasce.


    Mas os danos deixados por Guzzlord... A besta havia rasgado o tecido que separava as realidades, consumindo a energia da fronteira e ameaçando arrastar todo o inconsciente coletivo para o seu estômago faminto. Lunala interveio e conseguiu forçar a criatura de volta para a fenda, mas a verdadeira anomalia daquela batalha não havia sido o monstro. Ela odiava isso, mas não conseguia deixar de pensar na garota humana.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

NECRO - Capítulo 3: Âmbar


[Região de Kalos, Cidade de Shalour, Torre Mestra - Aproximadamente dois anos atrás]


Agreeing to Help AZ - Pokemon Legends Z-A OST


    Trevor girou a chave na fechadura da porta de sua sala no terceiro andar da torre, onde atendia como Expert em Criação Pokemon. Balançou o chaveiro ao redor do dedo indicador, girando os pingentes com formato de rosto de Charmander e Sableye. Assoviando, desceu pela rampa de pedra até o segundo andar, onde ficava a biblioteca.


 — Nossa, ainda estão por aqui? Achei que só a turma de dança do Tierno acabasse mais tarde.


 — Não por livre e espontânea vontade, Diego cismou com um livro velho — Cassius disse antes de dar um trago no cigarro. Estava sentado sobre um carrinho de livros.


 — Nem começa, Cassius! — Mairin cruzou os braços. — Ninguém te obrigou a ficar, você que ama muito a gente e não consegue desgrudar!


 — Ora... — As bochechas dele se avermelharam e ele olhou pro lado numa tentativa de esconder. — Cala a boca, pirralha.


 — Podem parar de tagarelar? — Diego reclamou. Folheava um livro sobre a mesa de metal da biblioteca. — AZ frequentava essa biblioteca, é possível que eu encontre algo por aqui.


 — Quem é AZ, Diego? Nome esquisito! — Carbink saltitou para cima do livro.


 — Cuidado, Carbink! — Diego o tirou de cima da folha velha que por sorte não rasgou. — AZ, ou Dédalo Azoth, seu verdadeiro nome, foi um inventor genioso que viveu por milênios. Ele cometeu muitos erros trágicos, mas também teve um fim heroico. Ele... Colaborou na tecnologia que Lysandre usou para fazer alterações no seu corpo.


 — Oh... — Carbink baixou as orelhas. — Eu conhecia então. Ou meu outro eu... Eu posso ser chamado de Carbink 2.0!


 — Nah, Carbink está bom, já temos um Carbink Segundo — Diego riu sozinho. — Mas se alguém tão estupidamente genial como ele vinha aqui...

    Diego continuava folheando o livro em busca do que queria. Carbink levantou as orelhas com curiosidade, tentando enxergar o que estava escrito sem incomodar, até Diego estreitar os olhos ao ver uma figura.


 — Pera aí, esse não é o... — Trevor se aproximou.


 — Yveltal — Diego disse, vendo um desenho bastante fiel do governante do domínio dos mortos.


 — O seu amigo que você fala quando dorme! — Carbink exclamou e Cassius disfarçou o riso, deixando Diego envergonhado. Desde que viajou por Kalos e Hoenn, sonhava constantemente com Yveltal. e Carbink era fofoqueiro demais para não explanar.


 — Nos tempos antigos... — Mairin começou a ler, e como ninguém protestou, ela continuou. — A Casa de Yveltal era um importante lugar de peregrinação para os Kalosianos. Eles iam até lá para falar com os mortos e homenagear os antepassados.


 — Está se referindo à Caverna da Reflexão — Diego interrompeu. — Ano passado, Leuri descobriu isso.


 — Nossa, a Leuri! Tem falado com ela? — Trevor o perguntou.


 — Ahn... — Diego desviou o olhar, vendo Carbink girando feliz. — Estou focado em outras coisas, agora. Ela também está bem ocupada e... Enfim!


 — Pelo que está escrito aqui, peregrinos podiam realmente falar com os fantasmas. No idioma antigo, chamavam o lugar de Necromanteion, o Oráculo da Morte. Você atravessava diferentes níveis de túneis, deixando oferendas e bebendo poções especiais...


 — Poções especiais — murmurou Cassius. — Que delícia.

    Diego lançou-lhe um olhar tipo já chega, cara, enquanto Carbink ria.

 — Prossiga, Mairin.


 — Os peregrinos acreditavam que cada nível do templo os aproximava mais do Mundo Inferior, até os mortos aparecerem diante deles. Se ficassem satisfeitos com as oferendas, respondiam às perguntas, talvez até mesmo revelassem o futuro.

 — E se os espíritos não ficassem satisfeitos? — Trevor perguntou.

 — Alguns peregrinos não encontravam nada — Mairin virou a página e fez uma pausa rápida para entender o que o texto dizia. — Alguns enlouqueciam ou morriam após saírem do templo. Outros se perdiam nos túneis e nunca mais eram vistos.


 — Perfeito, eu sei onde preciso ir, então — Diego se levantou com entusiasmo. — Obrigado, gente! Vejo vocês depois! Vamos, Carbink!


    O garoto correu para fora da sala, acompanhado pela pedra saltitante. Trevor observou enquanto eles desciam os andares da torre, com certa preocupação no olhar.


    A Caverna da Reflexão era uma das rotas para Shalour, então uma caminhada com Carbink foi o suficiente para chegarem. Como o menino lembrava, as paredes da caverna tinham propriedades reflexivas como espelhos, e a iluminação vinha dos diamantes azuis. Ele olhava o tempo inteiro para Carbink, tentando perceber se algo ali o fazia sentir ou lembrar de algo.
    Bastante tempo explorando a caverna se passou e os dois já estavam bem cansados. Diego desceu mais um nível e abriu os braços para pegar Carbink, que saltou gritando.

 — Uh? — Diego percebeu a aura rosa de Carbink se manifestando ao redor dele, fazendo seus pelos balançarem. — Fairy Aura...

    Fechando os olhos, Diego concentrou-se. Sua Dark Aura também se manifestou e, ao reabri-los, seus olhos estavam vermelhos. Esse era o lugar certo para o ritual.
    Cada vez mais pálido, Diego riscou o chão com um giz branco, fazendo um círculo. Acendeu velas de sebo negro em seu contorno e despejou Soda de Pokeblocos no meio, além de uma Pedra da Lua.


 — Diego... — Carbink tinha as orelhas baixas e tremia. — Você tem certeza disso? É meio assustador, e olha que envolve Pokeblocos...


 — Vai dar certo — Diego sorriu para ele, com os olhos cegos em vermelho. — Vamos lá... Como era? Gire a roda, tece o fio, abre o véu do rio frio...

        Uma nevoa sulfurosa surgiu sobre o chão de pedra da caverna. Sombras começaram a ficar mais densas e ganhar forma humana. Uma sombra azul vagueou para extremidade do círculo e ajoelhou-se para beber.


 — Impeça-no! — disse Diego, momentaneamente parando de entoar o cântico. — Somente ela
pode tomar!


    Carbink, mesmo assustado, saltou para a frente enquanto o diamante de sua testa se acendia. Os fantasmas recuaram com um coletivo assobio a vista dos reflexos das paredes.

    Então uma luz prateada chamejou entre os cristais, um espírito que parecia mais luminoso e forte que os outros. Ele se aproximou, e algo disse para Carbink que era melhor deixá-lo passar. Ele se ajoelhou e bebeu um gole do círculo.


Pokémon Omega Ruby & Alpha Sapphire The End

    O canto de Diego vacilou. Abriu a boca gradualmente conforme o espírito ganhava forma fantasmagórica e se reerguia. Ele se levantou quase tropeçando, mas não invadiu o círculo.


 — F-Funcionou... — A luz refletia em seus olhos, iluminando suas olheiras. — É você... Liza!


    Á sua frente, o fantasma de Liza olhava para o próprio corpo como se estivesse surpresa com aquilo. Ela pegou os Pokeblocos, jogando-os para a boca. Os outros espíritos começaram a se aglomerar, mas Liza ergueu seus braços e eles recuaram para os cristais.


    Carbink olhou confuso para a menina, mas não se manifestou. A expressão no rosto de Diego era diferente de todas que já tinha visto.


 — Olá, Diego, — Liza disse, parecendo finalmente enxergá-lo. — Você tem um... quase bigode!


 — E-Eu estou deixando crescer!


 — Não faz isso não... — Ela disse e os dois riram juntos.

    Ela parecia a mesma que quando viva: o uniforme azul do ginásio de Mossdeep, os cabelos pretos e lisos, amarrados num coque com um adorno de laço em formato de asas prateadas como a lua, com duas mechas cheias caídas. A pele clara como a do irmão gêmeo Tate.
    Diego se sentiu culpado pela morte dela por muito tempo, mas vê-la em sua frente era cinco vezes pior, como se sua morte fosse fresca e recente. Lembrou-se de ter procurado nos destroços da base da Team Flare em Geosenge e de não ter achado nenhum sinal dela nem de seus outros Pokemon.

 — Liza, eu... nem acredito! Eu consegui, finalmente estou falando com você de novo! Eu vou te trazer de volta, estou estudando muito e...


 — O quê? — Liza o interrompeu. — Eu não quero voltar, Diego.


 — Mas foi uma injustiça! Sua vida foi roubada por algo que nem tinha a ver com você! Toda essa história com Xerneas e Yveltal... Os deuses brincam com a gente e a gente só aceita? Eu não posso deixar você assim!


 — Diego — Liza falou com calma. Seu sorriso tranquilo no rosto iluminado o acalmava. — Minha jornada nessa vida acabou... Eu quero reencarnar como algo novo. Quero uma chance de ser alguém diferente.


 — Mas...


 — Diego, o seu amor é a minha âncora, mas eu preciso que você me solte para que eu possa seguir o meu caminho... E para você também seguir o seu.


    Olhando para o rosto dela, Diego desfez seu sorriso. Sentiu as lágrimas molhando suas bochechas e enxugou os olhos com a manga do casaco. Algo começou a queimar em seu rosto, e ao descobrir os olhos, viu a mão de Liza o entregando a Pedra da Lua.

    Diego piscou, sentindo a pedra fria em sua mão na memória desvanecer, sendo substituída pelo balanço lento do barco de ouro.

Pokémon League (Night) - Pokémon Brilliant Diamond & Shining Pearl OST


    Ele estava encarando o próprio reflexo sombrio e trêmulo nas águas verdes do Aqueronte. Havia mudado muito desde que deixou Sinnoh ao lado de Furfrou e foi para Kalos, onde podia aperfeiçoar seus conhecimentos de Criador Pokemon. Não imaginava tudo que aconteceria desde então. Ao menos não manteve o bigode falhado. Sorriu por ter seguido aquele conselho, mas logo se desfez por não ter seguido todos os outros.


    Quando despediu-se de Leuri em Hoenn, levou Carbink para criar novas memórias, mas nunca a confessou o que mais fez nesse tempo. Os cemitérios e templos que visitou em busca de aumentar sua conexão com seus poderes. Os sonhos horríveis que tinha com fantasmas suplicando misericórdia a Yveltal. Temia que Leuri tivesse o mesmo destino de Liza caso ficasse por perto, e no final, ele estava certo.


    O vapor frio do rio batia em seu rosto, mas o peso no peito era o mesmo daquela noite na Caverna da Reflexão. Liza tinha pedido para ser solta. Ela queria uma nova chance, um novo começo. E se a Leuri quisesse o mesmo?
    A dúvida o perfurou com a força de uma lâmina. E se fosse pior do que o que Arven disse sobre ela não lembrar de mais nada? E se a busca desesperada dele não fosse um ato de resgate, mas uma corrente prendendo quem ele amava ao barro da existência?


    Ao lado dele no barco, o barulho do remo de Gholdengo batendo na água continuava constante, e Arven jogava uma pedrinha para o Greavard Bochi pegar no ar, alheios à tempestade silenciosa dentro da cabeça de Diego.


 — Eu espero que vocês sobrevivam quando chegarmos nos portões — Gholdengo quebrou o silêncio. — Não me olhem assim, só quero que peçam meu aumento.

 — Não é como se pudéssemos morrer agora — Diego o respondeu, ouvindo sua risada com som de moedas balançando. — Fiz alguma piada?


 — Você não faz ideia, não é? O que vai encontrar guardando os portões pode não conseguir te matar agora, mas vai te trucidar em pedacinhos se não tiver cuidado! Ainda mais um mortal vivo... Boa sorte tentando convencê-lo agora de que tem permissão para fazer o que está fazendo!

    Diego não entendeu muito bem, mas o casco de ouro do barco de Caronte raspou contra a margem barrenta, fazendo um ruído agudo. O ar na borda daquele vale não era apenas frio como o do érebo, cheirava a enxofre e metal queimado.


 — É até aqui que o meu contrato vai — disse Gholdengo, mantendo o remo erguido. — Daqui pra frente é o Pavilhão do Julgamento, e atrás dele, a bifurcação das três estradas. Uma delas leva ao Tártaro. Rezem pro meu patrão protegê-los do bicho da porta.

    Antes que Diego ou Arven pudessem responder, o chão sob suas botas estremeceu. Um estalo ecoou pela fumaça cinzenta, seguido por um rosnado triplo que fez as águas do Aqueronte borbulharem para trás.


 — Tô indo nessa!! — Gholdengo pareceu apavorado, remando com mais força na direção contrária, de volta para o Érebo.


 — Diego, eu sei do que ele está falando... Você já deve ter ouvido no nome Cérbero — Arven disse com uma voz assustada.

    Cérbero... Desse Diego lembrava por um motivo engraçado. Leuri já havia contado sua história numa noite quando não conseguiam dormir. Lembrava exatamente de Carbink perguntando se o Houndoom de três cabeças usaria três gravatas ou uma só na cabeça do meio, e se as outras não ficariam com inveja.


 — O guardião dos portões... — Diego olhou para a curta estrada a frente. — Nunca pensei em ver algo assim pessoalmente.


 — Ele é o filho de dois monstros lendários, Equidna e Tifão. As almas precisam passar por Cérbero para chegar à vida após a morte, e, uma vez que o ultrapassam, não podem mais sair. Eu sinceramente não faço ideia de como vamos passar por ele — Arven confessou, levando a mão ao pescoço surrado do uniforme. — Podemos pensar em um plano e...

 — Cara — Diego o interrompeu. — Só fica atrás de mim. Eu cuido desse, já enfrentei coisas piores.


 — Mas nós...


 — Não tem nós, eu estou em uma missão — Diego o olhou sem paciência e Arven baixou os ombros. Bochi soltou um latido confuso. — Não quer sair daqui? É só não me atrapalhar e me seguir.

    Talvez tivesse sido grosso demais com aquele garoto assustado que acabou de conhecer, mas não estava com paciência agora. Não sabia quanto tempo havia se passado desde que desceu ao Domínio dos Mortos, mas sentia que não dormia há dias. Talvez para um herói de Yveltal isso não fosse uma limitação, mas o estresse acumulado continuava o mesmo de um mortal qualquer.


    Os dois seguiram pelo vale, onde fantasmas flutuavam para todas as direções em desespero. Os portões de grades de ferro negro estavam lá, mas novamente o chão estremeceu. Olharam para o topo da elevação de uma rocha negra, e lá a silhueta colossal de um autêntico Houndoom de três cabeças erguia-se contra o nevoeiro. As chamas que saíam de suas narinas não eram vermelhas, mas de um amarelo incandescente que queimava o oxigênio ao redor. Cérbero estava fora de si, tendo o dia mais estressante de sua vida. Sem o ceifador Marshadow e com a contenção quebrada, milhares de almas tentavam atropelar os limites do vale, e o monstro investia contra o vácuo de forma desgovernada, abocanhando o ar e rugindo de frustração.

 — Muito bem, ele está ocupado... Podemos só passar pelas grades do portão e ele nem vai notar.

 — Eu não acho que funcione assim...

 — Só vem comigo.

    Os dois foram se esgueirando pelas pedras do caminho na direção do portão. Um fantasma com o rosto desfigurado e sem um braço lançou-se por cima de Diego, que tentou socá-lo, mas sua mão atravessou o seu rosto. Com o susto, Bochi latiu, e Arven logo levou a mão até sua boca.


23 Kingdom Hearts OST 'Cerberus Attacks!'

    O Houndoom parou de pisotear um fantasma, levantando uma cabeça de cada vez. Todos os olhos de fogo queimaram mais forte e os três focinhos começaram a trabalhar. As três cabeças viraram-se em sincronia e os olhos fixaram-se em Diego. Com um salto que rasgou o solo batido, a fera desceu a colina em velocidade total.


 — Ele fareja os vivos porque não pode deixá-los entrar! — Arven gritou enquanto Cérbero se aproximava.


    Diego jogou os braços para a frente, tentando moldar as sombras sob os pés do monstro para criar um fosso, mas o desequilíbrio de sua energia o traiu. A viagem pelo Além-Vida, sua batalha com os guardas e a carga emocional da memória recente exauriram suas forças; a névoa escura falhou, dispersando-se em fracos jatos de fumaça.


    Cérbero pareceu ofendido com aquela tentativa de pará-lo. As cabeças da esquerda e direita rosnaram fazendo tudo estremecer, mas a do meio foi além. Suas mandíbulas incandesceram e ele assoprou um tornado de fogo em extensão até os garotos.


 — Droga! — Diego rangeu os dentes, paralisado pelo impacto iminente do sopro flamejante que vinha da cabeça central de Cérbero.


 — Gruaaaau! — Bochi saltou com sua vela queimando em chamas roxas no topo de sua cabeça. Seu corpo foi envolto por sombras, perdendo a matéria física e consumindo o fogo, mudando sua cor para um púrpura quase negro.


 — Vamos! — Arven chamou, já correndo e agarrando Bochi que já arfava com o esforço.

    Diego conseguiu se reposicionar, já puxando uma Dive Ball do bolso de seu casaco. Cérbero percebeu sua movimentação, cessando as chamas e rosnando para ele.

Pokemon Legends Z-A OST - Battle! Rogue Mega Evolution


 — Carvanha, me ajude com Hydro Pump! — gritou, arremessando a esfera.


 — Vanhaaaaaaaaa!


    Carvanha girou entre respingos d'água ao deixar a capsula. Preferiu não pensar muito ao ver o monstro em sua frente, já acostumada com situações assim, então se projetou para trás enquanto cuspia um turbilhão d'água na direção de Cérbero.


    
As chamas que saíam da boca central de Cérbero chocaram-se direto contra o jato d'água de Carvanha. Um estrondo abafado ecoou pelo vale quando o choque de elementos gerou uma densa nuvem de fumaça cinzenta e tóxica. O vapor espesso impregnou o ar, expandindo-se rápido demais e engolindo o contorno das três cabeças do monstro.
    Diego tossiu, cobrindo o rosto com a manga do casaco. Quando a nuvem negra baixou ligeiramente, o Houndoom gigante não estava mais onde antes pisava.

 — Carvanha, cuidado! — Diego gritou.


    Um som pesado de cascos rasgando a terra soou à direita. A patada maciça de Cérbero desceu como um martelo na direção da peixe.


 — Vanhaa!!!!!!!! — Carvanha soltou um estrido agudo de pavor, vendo a sombra colossal cobrir seu corpo.


— Aqua Jet, agora! Foge disso!

    Girando seu corpo junto de fachos d'água, Carvanha disparou para o lado a milímetros de ser esmagada. A pata do Houndoom atingiu o solo com tanta força que fez rochas voarem, criando uma pequena cratera. Cérbero virou as três cabeças em sincronia, os focinhos fungando a trajetória d'água. Em vez de irritar-se, a cabeça da esquerda soltou um rosnado curto que quase soou como um ganido brincalhão. A fera começou a perseguir a trajetória de Carvanha, dando botes alternados com as cabeças secundárias, tratando a peixe apavorada que esquivava no limite como um brinquedo ambulante.


 — Sempre com ela... — Diego avançou dois passos, fechando os punhos com tanta força que as unhas se cravavam nas palmas.


    Ele buscou o calor de sua Dark Aura, tentando projetar as sombras para amarrar as patas da besta, mas a fumaça negra apenas crepitou em suas mãos antes de dissipar-se no ar como fuligem. O pulso de dor na sua cabeça foi imediato. O poder simplesmente não respondia.

 — Por que essa merda não funciona?! — Diego rosnou, caindo de joelhos e socando a terra.

    Arven, que observava a cena a poucos metros com Bochi nos braços, aproximou-se devagar. Ele olhou para as mãos trêmulas de Diego e depois para a aflição no rosto do garoto.


 — O que costuma fazer seu poder funcionar? — Arven perguntou, a voz calma tentando cortar a agitação do ambiente. — No que você pensa quando faz suas coisas de Necromante?

    Diego nem parou para questionar como o garoto conhecia aquele termo que Pheromosa também o chamou. Ele afundou as mãos no cabelo, puxando os fios enquanto mantinha os olhos cravados no chão batido.


 — Eu não sei! Minha cabeça tá cheia... Essa bagunça com a Leuri, o Yveltal, a minha avó, meus últimos anos... São tantas coisas de uma vez que eu não consigo me concentrar em nada!

    Arven observou o desespero nos olhos avermelhados de Diego e soltou um suspiro. A peça encaixou.

Pokemon XY Music: Together with Shauna


 — Você está desfocado por causa do luto — Arven disse, abaixando-se ao lado dele. O tom de sua voz mudou, perdendo qualquer traço de hesitação. — Eu conheço essa sensação. Já faz um tempo que o meu parceiro morreu... Um Mabosstiff. Ele ficou doente e, por mais que eu tenha tentado de tudo pra salvar ele, não deu. Eu achei que o mundo tinha acabado ali.


    Diego levantou o rosto devagar, encarando Arven com um olhar confuso, no meio da poeira e do som dos botes de Cérbero ao fundo.


 — E aí o Bochi apareceu — Arven continuou, fazendo um cafuné suave na cabeça do Greavard. — Ele é a prova de que o amor pode assumir formas estranhas na morte, Diego. Você não está sozinho carregando essa dor. Mas se deixar a culpa e o desespero tomarem conta, a Carvanha vai virar o novo brinquedo de um Houndoom com três cabeças.


    As palavras de Arven bateram fundo. Pela primeira vez desde que pisou no Domínio dos Mortos, Diego sentiu o isolamento sufocante em seu peito ceder um pouco. Ele não era o único que sabia a dor de ver a vida de quem amava se apagar.
    Diego encarou Carvanha desviando de mais um bote da cabeça da direita, soltando um choro cansado.

 — Ok... Vamos focar em ajudar a Carvanha e parar essa coisa — Diego levantou-se, limpando a poeira das calças. — Acho que sei o que pode nos ajudar... Ou melhor, quem.

    Desde que haviam pisado no barco de Caronte, uma sensação sutil acompanhava Diego. Uma vibração na espinha, a impressão incômoda e ao mesmo tempo reconfortante de que alguém continuava por perto, observando seus passos.
    Diego correu para um canto, passando a mochila para frente do corpo. Começou a delimitar um círculo no chão, e Arven o acompanhou, pegando um sanduíche e uma garrafa d'água.

 — Vai ter que servir — Diego murmurou.

 — Isso é... para uma invocação? — Arven o viu acender as velas.

    Diego fechou os olhos, respirou fundo e deixou suas lembranças guiarem sua intenção, sobrepondo-se à dor. Sua voz ecoou rouca, cortando o rugido do Houndoom ao começar seu cântico.


Full Speed Ahead (Instrumental) - EPIC: The Musical


 — Quebre o mármore, rasgue o chão, traga o sopro e a pulsação! — Ele gritou o verso final enquanto um fantasma de luz prateada vinha se aproximando do círculo, bebendo da água e agarrando o sanduíche.


    A luz cortou a escuridão daquele lugar como um sol iluminando um novo dia. Do meio daquela luminosidade prateada, a forma etérea de Liza materializou-se diante de Diego. A essência de sua alma chamejava como um vulto guerreiro, e sua expressão era de paz.


 — Oi... Liza — Diego sorriu para ela, que olhou para Cérbero, entendendo a situação. — Eu sabia que estava por perto. Pode nos dar uma forcinha?


 — Deixa comigo! — Seu fantasma voou pelo vale, deixando um rastro de brilhos prateados.


    Encurralada por Cérbero contra uma rocha, Carvanha temeu seu fim. Não podia acreditar que partiria antes de se tornar uma Princesa Disney oficial. Viu sua vida passando diante dos olhos e os fechou quando as três bocarras daquela fera vinham se aproximando. Alguns segundos se passaram e nada aconteceu. Seria essa a sua eternidade? Ela decidiu abrir os olhos, e chocou-se com o que viu.


 — E aí, Feia de Neve? — Liza sorriu para ela. Estava de braços abertos à sua frente. Cérbero estava igualmente chocado. — Você foi um cãozinho malcriado hoje!

    A menina abriu seus braços e, de seu corpo, uma centelha prateada irradiou. O clarão atingiu os seis olhos do Houndoom de uma só vez. A fera soltou um uivo agudo de dor e desorientação, sacudindo as três cabeças e arranhando o próprio focinho enquanto vacilava nos passos, começando a cuspir chamas para todos os lados.

 — Carvanha, Scale Shot! — Diego gritou, correndo na direção dela.


    Nadando na poça d'água que se formou de seus últimos movimentos, Carvanha girou enquanto de sua pele áspera várias escamas se desprendiam. Fundiram-se com a luz de Liza, ganhando um novo brilho ao atravessarem o fogo de Cérbero, contendo as chamas.


 — Agora! — gritou Arven, reagindo mais rápido do que Diego esperava. — O olho esquerdo da cabeça da direita tá cego! O ângulo morto dele é a pata traseira!


    Arven apontou para a frente e o pequeno Greavard Bochi projetou-se diretamente na perna esquerda do monstro colossal. Agarrando-se aos pelos negros cobertos de ossos da fera, Bochi acendeu a vela de sua cabeça. A luz azulada da chama começou a sugar a vitalidade do Houndoom, fazendo a pata gigante perder a sustentação e tombar.


    Diego viu a brecha. Com um rosnado, fincou as duas mãos na terra. A Dark Aura expandiu-se em um anel, e o chão sob as patas traseiras do Houndoom cedeu, abrindo uma fenda de sombras que tragou as pernas da fera até a altura do quadril, prendendo o monstro na rocha.

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 — Conseguimos! — Arven correu para o lado de Diego, arquejando, enquanto Bochi saltava de volta para os braços do dono, visivelmente estufado da energia vital que acabara de absorver. Agora parecia uma bolinha.


 — Vanhaaa!! — Carvanha nadou para perto deles, sobrevivente.

 — Obrigado, você foi ótima — ele agradeceu, regressando-a.

    Arven encarou o vulto de luz e deu um sorriso amargo, apertando Bochi contra o peito.

 — Então...

    Liza girou no ar, a luz prateada ao seu redor começando a se fragmentar em pequenas centelhas que lembravam poeira de estrelas. Ela flutuou devagar até parar a poucos centímetros de Diego.


 — Veja onde você chegou...

 — Não é motivo de orgulho...

 — Está muito bonito — ela disse, jogando as mãos para trás, e o menino corou. Apontou sua mão luminosa para além da névoa do vale, onde um brilho dourado distante se cruzava com a neblina cinzenta das margens de outro rio. — Para lá é onde o Elísio e os Campos de Asfódelo se encontram. Você já ouviu falar deles?

 — Não que eu me lembre...


 — Os Campos de Asfódelo é para onde vão as almas que não desejam ser julgadas. — Arven apontou — É como ficar em um campo de trigo pela eternidade, só que esquecendo todas as suas memórias de vida. As pessoas que são julgadas e que não fizeram o bem ou o mal o suficiente em suas vidas terminam lá, também.

 — Correto, e o Elísio é para onde vão as almas daqueles que morreram como heróis ou levaram uma vida virtuosa.

 — Que é para onde você foi — Diego disse, e Liza assentiu, sorrindo e jogando as mãos para trás novamente.


 — Lá há um lago azul cintilante, onde se encontram as Ilhas dos Bem-Aventurados, o lugar para onde as almas que viveram três vidas virtuosas consecutivas podem se retirar após a terceira morte. No entanto, poucas conseguem isso. Eu... quero tentar ir pra lá. Estou pronta para começar uma nova vida. — Ela apontou para o portão, que foi envolto em sua luz prateada e se abriu para eles. —  O Rio Lete me espera do outro lado desse pavilhão. Eu preciso beber daquelas águas para esquecer quem fui e nascer de novo.

 — Liza... — Diego tentou estender a mão, mas os dedos atravessaram a poeira de luz. — Se tem alguém que merece estar naquela ilha, é você.

 — Obrigada! Eu vou acompanhá-los até o Pavilhão do Julgamento — ela sorriu, aquele mesmo sorriso tranquilo que ele lembrava com carinho. — Mas depois disso, não vou poder ajudar mais.

    Diego apertou os punhos ao lado do corpo, vendo as centelhas de Liza começarem a guiá-los pela trilha de pedra em direção às brumas do Asfódelo.


    Cérbero, preso na rocha, soltou um último ganido baixo, e as chamas das narinas apagaram-se conforme a paralisia das sombras e a drenagem do Greavard faziam efeito.

 — Arven — Diego o chamou, sem deixar de seguir Liza pela trilha. — Desculpe pela forma como falei com você. Se não fosse pela sua ajuda, eu teria sido devorado pelo Cérbero.

 — Está tudo bem, você não confiava em mim. Ficamos mais fortes se trabalharmos juntos.

    Diego sorriu. Era bom fazer uma nova conexão mesmo em situações como aquela.
    Os dois continuaram a acompanhar Liza, que parou quando chegaram num átrio imenso, também num caos de fantasmas desesperados como todas as outras áreas do Domínio dos Mortos que visitaram. Ali, no topo de três palanques de mármore hisuiano, ele não acreditou no que viu.

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 — Condenada! — O fantasma de Joseph Stone gritou, exatamente na forma em que morreu, o corpo tomado do antigo Campeão de Hoenn, Steven. — Vá para os Campos de Punição!


 — Protesto. — Ao lado dele, se pronunciou o fantasma de Lysandre, acariciando a juba de seu Pyroar. — Não acredito que comentar em todas as postagens da Diantha chamando a Gardevoir dela de magricela seja o suficiente para os Campos de Punição. Minha sentença é uma eternidade em Asfódelos.


 — Pff, você está deixado mágoas de nossas vidas passadas interferirem em seu julgamento!


 — O que diabos é uma postagem? — No meio dos três, o fantasma mais antigo, e também conhecido por Diego... O Rei Minos.


 — Apenas mande para Asfódelos logo...


 — Não sem um consenso, quero saber o que é uma postagem para definir minha sentença — Minos rosnou.

    Guardas como os que Diego enfrentou no Érebo empurravam almas rebeldes enquanto os três juízes discutiam acalorados. O garoto engoliu em seco. Se aqueles eram os juízes, não estava ansioso para o dia que passaria por eles...

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    Olhou para trás dos palanques, onde ficavam as três estradas. Conseguia enxergar nitidamente o começo de Asfódelos, os campos de trigo infinitos cheios de almas vagando sem saber quem são. Se falhasse com Leuri, provavelmente acabaria ali, uma sombra sem nome pela eternidade. Afastou o pensamento quando Liza soprou algo brilhante para cima dele.


 — Pronto, é um pouco da minha essência para disfarçar essa aura de vivos, ou vão acabar sendo capturados pelos guardas Ceruledge — ela disse, e Diego assentiu. Então esses eram os nomes deles. — Além de Asfódelos e do Elísio, o terceiro caminho é conhecido como a Estrada de Bronze. Ela vai parar nos Campos de Punição... E de lá vocês chegarão no Tártaro. Estão bem perto agora.


 — Liza, não sei como agradecer o suficiente.

    Diego queria dizer o quanto sentia a falta dela. Reforçar o quanto se arrependia por tudo e implorar para ela não ir para o Rio Lete, e sim voltar com ele. Pegar toda a culpa que sentia e se consumir com ela. Todo o ódio e rancor que tinha dentro dele... Definitivamente o levaria para os Campos de Punição. Em vez disso, ele soltou o ar pela boca, se esforçando para sorrir.

 — Obrigado, de coração.


 — Fico feliz em ajudar! Mas gostaria de poder fazer mais... Eu sei o que te trouxe aqui — sua fala o roubou os pensamentos. — Diego, eu entendo o que está fazendo, mas precisa decidir se vai buscar a Leuri pelo que ela é ou pelo que você não consegue soltar dela.


 — Eu vou pensar sobre — ele disse, e Liza assentiu.


 — Eu sei que sim. Boa sorte em sua missão, ensine uma lição para aquela besta! — Liza acenou enquanto Diego e Arven seguiam para a Estrada de Bronze, desviando dos palanques dos juízes.

Continua

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Capítulo 2: Travessia do Mar.

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