quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Capítulo 2: Travessia do Mar.


    Um verdadeiro paraíso de conto de fadas. Esta poderia ser uma forma de descrever esse lugar além de prados cor-de-rosa, atravessados por rios de uma coloração quase cósmica de lilás, um reino encostado numa montanha prateada de contornos de ouro. Lá erguia-se o enorme castelo no coração do reino onírico, o Sonhar.

     Conectado por pontes de bronze de diferentes inclinações, todas as estruturas de seu exterior eram feitas de mármore, colunadas e brancas, colaborando para reafirmar a imagem da nobreza daquela que governava este reino, a Deusa dos Sonhos e dos Pesadelos.


    Bom... Ao menos era assim que deveria ser, mas as coisas estavam diferentes. Várias partes do reino estavam esburacadas para um vazio infinito como se o próprio tecido do mundo estivesse rasgado. No castelo, algumas colunas apresentavam rachaduras e as paredes de marfim tinham falhas inexplicáveis. Através delas, a névoa dos sonhos cor-de-rosa se esvaía em direção ao céu.


 — Então, Raquele... Eu falo ou você fala? — sussurrou o que parecia um Pokemon humanoide semelhante a Tangrowth, mas com vinhas grisalhas na cabeça, óculos pendurados no pescoço, uma barriga saliente e botas verdes com sinos.


 — Ela não vai querer escutar agora, com certeza — a mulher negra de cabelos longos trançados respondeu no mesmo tom. Usava um grande vestido rosa com formas de cupcakes que mexiam-se de um lado para o outro sem parar. — Talvez se for Aarune...

    No centro do salão principal do castelo, a Deusa Lunala pairava diante de uma fissura aberta no mármore. Névoa rósea escapava da rachadura como sangue de uma ferida. Raquele já tinha perdido as contas de quantas vezes a observou repetir o mesmo processo nas últimas horas.


    Lunala ergueu suas asas e uma luz prateada inundou o salão. As rachaduras se fecharam apenas para se abrirem novamente segundos depois. O silêncio que veio a seguir pareceu mais perigoso que sua tentativa fracassada.


 — Está claro que aconteceu algo além dos poderes dela! — disse um dos três pequenos peixes coloridos, o cor-de-rosa.


 — Este reino é literalmente uma extensão da existência dela, como ela pode não conseguir consertar esses buracos? — O peixe amarelo, o maior dos três, levantou as nadadeiras.


 — Não falem alto, seus idiotas! Vão irritá-la! — O menor dos três, o laranja, quase gritou se lançando nos outros dois.

    Todos olharam diretamente para Lunala após o tom de voz do último peixe. A Deusa já era conhecida por seu temperamento complicado e pela teimosia, mas numa situação atípica como essa que ameaçava seu Domínio, era aterrorizante pensar em irritá-la ainda mais.


 — Eu posso ouvi-los mesmo quando sussurram, Tatsugiris — ela disse, voando para seu trono lunar de mármore. — Arrrh... Já deveria estar resolvido... Mesmo sem os guardiões, são apenas rasgos no tecido onírico. 

    Raquele recolheu os lábios para dentro da boca. Sua expressão quase evocava o que estava pensando. Como algo poderia ameaçar aquele lugar a ponto de não poder ser reparado pelos poderes de quem o construiu? Quase pulou com o susto quando o portão pesado do salão se abriu e as vozes de uma multidão invadiram o espaço.
    Aarune, o fazendeiro errante que viajava pelo mundo desperto, entrou apressado. Empurrou o portão com as costas para conseguir fechá-lo e limpou o suor da testa, mas ajeitou a postura rapidamente ao ver que uma reunião acontecia. Aquele era o braço direito de Lunala, embora ela não admitisse, todos o enxergavam assim.


 — Finalmente! O que descobriu? Conte a ela! — disse o Tatsugiri amarelo.


 — Minha Deusa, lamento pela situação — Aarune retirou o chapéu, o levando ao peito e se curvando. — Estive com Tapu Lele no mundo desperto antes dela ser consumida pela besta. Não haviam sinais de um ataque ao Sonhar durante o eclipse...

 — Relate os fatos, Aarune
— Lunala o interrompeu. — Não as ausências. Está claro que foi algo calculado. Guzzlord atacou quando as barreiras entre os mundos estavam enfraquecidas, isso não foi coincidência.

    Enquanto a Deusa falava, a névoa dos sonhos reorganizava-se ilustrando a situação; as formas dos guardiões transformando-se em talismãs perdidos no vácuo do estômago da besta. O Tatsugiri laranja recolheu-se com a lembrança da batalha anterior. Guzzlord facilmente poderia ser um dos pesadelos dos mais barra pesada que Lunala já criou.

 — Bem... Além dos quatro guardiões, outros arcanos e entidades que habitam o reino podem ter sido consumidos ou partido para o mundo desperto em fuga — Aarune acrescentou, e Lunala fechou os olhos. — Eu cuidarei de fazer um novo censo para entendermos melhor. Enquanto isso, se puder consertar os vazamentos da névoa, talvez acalmaria os...


    Aarune interrompeu-se ao ver a expressão de Raquele e os outros, sinalizando sutilmente para ele ficar quieto.

 — Azul das Vinhas
 — Lunala referiu-se ao Tangrowth, que arrepiou-se e endireitou a postura. — Quais são as notícias das terras vizinhas?


 — Soube por uma alma fugitiva que o domínio de seu irmão foi invadido por outra besta pouco antes do ataque de Guzzlord, minha Deusa
— ele curvou-se. — Os mortais terão problemas se algo não for feito rápido.


 — Para cuidar disso, ele descumpriu o acordo e tornou um mortal em seu herói
— Lunala levantou voo, passeando pelo teto do castelo, onde um vitral vermelho de Y acendeu-se conectado por pontinhos luminosos como uma constelação. — E... Nada sobre Solgaleo?

 — Nenhuma notícia do soberano dos sonhos despertos.


 — Pela situação que o reino dele se encontra, é questão de tempo até que seja o próximo — Lunala aproximou-se de outro vitral, acendendo em laranja com o símbolo do sol de Solgaleo. — Aarune, faça o novo censo e avalie os danos. Os demais arcanos, mantenham suas funções. Não há motivos para desespero.

    O que poderia ser mais desesperador que o reino onírico se desfazendo e Lunala não conseguindo fazer nada a respeito? Raquele, Azul das Vinhas e os Tatsugiris pensaram no mesmo. Eles trocaram olhares preocupados, mas não se opuseram.


 — Eu preciso pensar
— ela continuou, ainda de costas para todos.

    Os portões abriram-se uma vez mais, mas o som da multidão cessou. Quando fecharam-se novamente, Lunala soube que estava sozinha.


    A Deusa voou pelos vitrais de seu castelo. Todos continham símbolos diferentes, cada um representando os mais poderosos em sua família, os chamados 12 maiores. Há muito tempo, eles compreenderam as consequências de se envolverem diretamente com a humanidade. Traições, loucura, guerras... Lunala não conseguia compreender como a maior parte deles ainda assim não conseguia evitar de fazer isso.


    Como a Deusa dos Sonhos e Pesadelos, Lunala exercia sua função rigorosamente desde os primórdios. Diferente dos outros grandes deuses, ela não influenciava nenhum mortal a adorá-la ou temê-la. Sem grandes templos no mundo desperto, sem esculturas preservadas ou pinturas lembradas... E principalmente, sem heróis proclamados. Era melhor assim, mantendo seu voto de distanciamento eterno da humanidade, para que continuasse a cumprir o seu papel com eficiência.


    Apesar de ter origem comum a de Yveltal e Solgaleo, Lunala era a personificação do Sonhar e tinha plena consciência de que isso a diferenciava. Fundamentalmente, deveria se manter sozinha executando sua função, esta era a sua natureza, afinal. 
Mantinha seu reino operando sob uma divisão rígida de tarefas. Seu papel principal e exclusivo era o de moldar as formas e vozes mortais no plano onírico; caso contrário, todos enlouqueceriam com a enxurrada de imagens abstratas que mentes frágeis jamais conseguiriam processar.

    Havia uma ironia em sua existência que com certeza nenhuma outra divindade poderia compreender. Lunala mantinha-se fisicamente distante dos humanos, mas tinha noção que conhecia o inconsciente de cada um deles com uma intimidade assustadora. Todas as noites, os mortais despem-se de suas armaduras no mundo desperto e entregam-se indefesos ao seu domínio. Ela caminha por suas memórias mais profundas, seus medos mais vergonhosos e seus desejos mais puros. Lunala se entendia como uma confidente eterna de uma raça que a esquece completamente assim que o sol nasce.


    Mas os danos deixados por Guzzlord... A besta havia rasgado o tecido que separava as realidades, consumindo a energia da fronteira e ameaçando arrastar todo o inconsciente coletivo para o seu estômago faminto. Lunala interveio e conseguiu forçar a criatura de volta para a fenda, mas a verdadeira anomalia daquela batalha não havia sido o monstro. Ela odiava isso, mas não conseguia deixar de pensar na garota humana.




    O balanço das ondas do mar já não era capaz de embalar o sono de Lana. Ela estava sentada na amurada de um velho barco de madeira, com os pés balançando no ar, os olhos pesados e ardendo por não ter fechado um segundo sequer desde o dia anterior. Nas mãos, apertava com força um livro azul marinho de capa gasta, com o título gravado em relevo prateado "Travessia do Mar".

 — Cheeeeehooo! — o grito interrompeu seus pensamentos e ela apertou o livro com mais força contra o peito.


 — Pai, por favor!
— reclamou, escutando-o gargalhar.


 — Vamos, anime-se! Não quer velejar um pouco no Hoku?


    O pai de Lana estava sempre navegando com seu barco apelidado de "Hoku", o mesmo texto gravado em sua proa. A pintura descascada brilhava sob o sol forte de um dia em Akala, mas ainda dava para ver os detalhes de ondinhas que o enfeitavam. Lana detestava o cheiro de peixe daquele barco, mas já fazia um tempo que não via o seu pai. Ele voltou para o Festival Manalo, mas se atrasou, para variar. Não era sua companhia favorita, mas no momento estar no meio do mar, longe de todos, parecia ser sua melhor opção.


 — Eu não sei navegar
— Lana olhou rapidamente para o leme. — E você só está sorrindo assim porque não estava aqui ontem... Não viu como tudo aconteceu.


 
—
 Lana, Wela chamou pelo Kahuna Keahi, então estava na hora dele ir 
— seu pai disse, aproximando-se dela.
— Mas pela sua cara... Tem mais alguma coisa que eu perdi?


    Lana apertou o olhar, revivendo suas lembranças de ontem. Geeta enfrentando aquele monstro que consumiu a mulher de cabelos rosas, e depois fingindo que nada aconteceu. O jeito que Olivia gritou com ela como se estivesse inventando algo na hora errada...


 — Nós... Podemos só continuar navegando?

    Seu pai voltou-se para o leme, assobiando alguma canção que só ele conhecia. Lana levou uma mão a boca, bocejando pelo cansaço. Ela abriu o livro em seu colo, folheando suas páginas, forçando-se a prestar atenção em busca de alguma resposta que esperava que aparecesse ali.


    Lembrava-se da primeira vez que leu aquela história. Acerola o trouxera da biblioteca de Malie, na Ilha Ula' Ula, dizendo que ela iria adorar, e não poderia estar mais certa. Passou horas junto com Mallow folheando aquelas páginas, lendo a história da Capitã Hina, uma navegadora heroica que descobriu as ilhas que hoje formam o arquipélago de Alola. Ele foi construído com inspiração em murais reais encontrados em antigos templos por toda Alola e arredores, e a história se passa no tempo dos ancestrais que primeiro habitaram as ilhas.


    As histórias dos primeiros habitantes de Alola sempre foram do seu interesse, afinal ela cresceu ouvindo as que Kahuna Keahi contava. Foram navegadores incríveis que exploraram o continente em barcos menos sofisticados do que o Hoku, aliados dos Pokemon do mar, e desenvolveram técnicas avançadíssimas para a época que hoje são referência por todo o mundo.



    Um dos seus capítulos preferidos narrava uma das aventuras de Hina onde ela usou a luz da lua para se guiar durante uma tempestade repentina que foi interpretada como um aviso de que o Grande Oceano estava descontente com os navegantes velejando em suas águas. Hina estranhou, afinal ela havia guiado seu povo para todos os cantos, descobrindo novas ilhas e sempre cultuando o poder de Oceano.


    Naquela noite, Hina fez suas preces a Wela, oferecendo conchas e pedindo que o fogo do arquipélago guardasse seu povo na viagem. Sua decisão foi não mudar a rota. A capitã sabia se guiar no mar, sabia exatamente aonde estava e tinha a certeza de que seguia na direção certa para encontrar uma nova ilha ou... algo além.


    Lana passou a ponta dos dedos pelas ilustrações desgastadas que mostravam o barco da capitã enfrentando ondas gigantescas sob um céu noturno limpo de estrelas. No texto, Hina não tinha medo; ela confiava no mar. Mas o que mais fascinava Lana era o desfecho daquele capítulo. O relato dizia que, no auge da tempestade, a tripulação entrou em um estado de sono profundo. Um único sonho compartilhado por todos. Quando acordaram, o mar estava calmo e uma nova ilha havia surgido no horizonte. Hina escreveu em seu diário que eles não haviam navegado através da água, mas sim através de um sonho.


    A garota fechou o livro com um estalo, abraçando-o contra os joelhos. Na época em que leu aquilo com Mallow, as duas acreditaram que a história era mais do que apenas uma lenda poética sobre a coragem dos primeiros alolanos. Agora, com os olhos ardendo de sono e a mente estilhaçada pelos últimos eventos, Lana se perguntava se a Capitã Hina também não havia sido puxada para aquele infinito azulado. Se ela também não havia visto as mesmas coisas...


    E, acima de tudo, se alguém havia acreditado nela quando acordou.


 — Uuuh! Travessia do Mar, você não já leu isso umas mil vezes? — A voz do pai cortou o silêncio repentinamente. Lana nem percebeu que ele havia se aproximado, e soltou um som de indignação quando ele esticou o braço longo e pescou o livro de seu colo. Ela tentou pegá-lo de volta, mas era baixa demais para alcançar as mãos dele elevadas no ar. — Meus pais sempre estavam contando histórias da Capitã Hina e os monstros que ela enfrentou em suas aventuras, me ajudava a pegar no sono. Legal essa versão com desenhos dos ancestrais. Por que está tão envolvida com isso hoje?


 — Dizem que foram os descendentes da tripulação dela que passaram essas histórias de geração em geração para esse livro existir — Lana disse, conseguindo pegar de volta seu livro. — Não consigo acreditar que a história dela não tem um final. Se pararam de contá-la, devem ter parado de acreditar nela também, assim como todo mundo de hoje em dia. E se pararam de acreditar... Do que adiantou ela ter descoberto a verdade? Que havia algo além do que conhecemos?

    Seu pai percebeu como suas mãos tremiam ao apertar a capa do livro com força. Também notou a expressão dela, sustentando as lágrimas.


 — Isso tem algo a ver com ontem, uh?
— Ele a perguntou, e Lana escondeu o rosto com as mãos. — Lana, Lana... O Kahuna Keahi contava que Oceano testa os corajosos. Joga um mistério na frente deles, tipo um anzol, pra ver se puxam a verdade. Acho que era sobre isso quando ele dizia que um dia Alola pararia de sonhar... Eu não sei o que aconteceu, mas mesmo que as águas te testem, é importante acreditar na sua verdade. Não era isso que a Capitã Hina fazia?

 — Mas e daí? — Lana soltou as mãos do rosto, revelando os olhos arregalados, vermelhos de insônia. — A verdade não deveria nos libertar? Porque eu nunca me senti tão oprimida! Nem mesmo os meus amigos acreditaram... Eu acho que nem vou no Tangi hoje. Não vão me querer lá, não faz sentido...


    O Tangi é o tradicional e sagrado ritual fúnebre do povo de Alola, uma das cerimônias mais importantes de sua cultura. Durante o processo, comunidades das quatro ilhas se reúnem para expressar abertamente seu luto da forma que preferirem, como dançando e cantando, para honrar o espírito da pessoa ou Pokemon que partiu. No caso do tangi de um Kahuna, a cerimônia é ainda mais sofisticada.

 — Não é fugindo do seu luto que vai "se libertar" — seu pai disse. — Além de tudo, Kiawe vai precisar de uma amiga hoje.

    Ele estava certo. Não havia falado com o neto do Kahuna Keahi desde antes de tudo acontecer. Kiawe tinha o seu próprio jeito de enxergar e lidar com o mundo, sempre teve dificuldade em se expressar e interpretar situações e conversas. Estava preocupada em como o luto o afetaria. De repente, sentiu-se uma péssima amiga por não saber onde ele estava agora.



    Longe do mar ou das aldeias, num recanto escondido cujo o chão parecia um tapete de florações avermelhadas, o mundo parecia girar num ritmo inteiramente próprio. Entre roseiras de espinhos retorcidos e pétalas de um vermelho muito vivo, Kiawe movia seu corpo numa dança.


    Seus passos criavam o seu próprio ritmo. Ele girava devagar, inclinando o tronco e cruzando os braços no ar de forma quase hipnótica. As pétalas soltas roçavam em suas pernas a cada movimento. Ali, envolto pelo perfume das flores e pelo estalar sutil dos ramos de espinhos ao redor, a mente do garoto parecia desanuviar do peso do mundo. A dança era sua linguagem secreta, um refúgio onde não precisava explicar a ninguém a intensidade do que sentia — ou a falta que sentia de compreender o próprio ritmo das coisas.


    Ele inclinou o pescoço para trás, deixando os olhos quase fechados enquanto sentia a brisa aquecida tocar sua pele. Suas mãos desenhavam arcos no ar, buscando um equilíbrio interno que as palavras jamais alcançavam.
    De repente, um estalar seco entre os arbustos quebrou a fluidez de seu movimento.


    Kiawe travou os braços no ar com o peito subindo e descendo acelerado. Uma bochecha esquentou imediatamente de vergonha. Perto de um aglomerado de espinhos, um Oricorio vermelho o observava fixamente, balançando as penas vermelhas da cabeça.


    O garoto recolheu os braços, ajeitando a postura num gesto rápido e desajeitado, baixando os olhos para o chão para evitar o olhar do Pokemon. Sem dizer uma palavra, marchou para fora do campo florido.


    Na borda de uma trilha de pedra, o grande Charizard de seu avô o aguardava pacientemente. O dragão mantinha a cabeça elevada, fitando o céu escurecido com uma quietude solene, olhando para a lua. Kiawe aproximou-se em silêncio. Estendeu a mão e acariciou suavemente a parte inferior do seu queixo, sentindo o calor aconchegante que emanava da pele dele.


    Charizard soltou uma baforada fraca de fumaça pelas narinas, abaixando um pouco o corpo para permitir que Kiawe montasse em suas costas. O garoto ajustou-se no dorso do Pokemon, e ambos levantaram voo em direção ao Parque Vulcânico.


    No coração do parque, a multidão acumulava-se em um semicírculo silencioso em volta do altar de pedra. O ritual do Tangi mobilizara habitantes de todas as quatro ilhas de Alola. Bandeiras azuis e vermelhas balançavam sob a névoa tépida que subia das fendas do vulcão.


    Olivia permanecia no centro do recinto cerimonial. Vestia o manto formal de tecido pesado e ajustava os detalhes nos pulsos com as mãos levemente trêmulas. O semblante exausto denunciava as longas horas sem descanso.


 — É uma perda que todos sentimos no fundo do peito — a voz grave de Hala ressoou ao lado dela. O Kahuna de Melemele mantinha os braços cruzados sobre o peito, observando as oferendas empilhadas. — Mas Keahi sabia o momento em que a chama de seu ciclo deveria descansar.


 — E ele deixou claro nas mãos de quem Akala deve ser confiada — acrescentou Nanu, mantendo o olhar desinteressado no chão enquanto encostava as costas num pilar de pedra.


    A grande Kahuna Mudsdale Juju deu um passo à frente, soltando um relincho baixo de concordância que fez a poeira ao redor balançar.


 — Provavelmente... — Olivia murmurou, desviando o olhar para o alto do vulcão. O peso da palavra parecia sufocá-la. A transição para assumir como nova Kahuna formal de Akala acontecia sob a sombra de um eclipse mal resolvido e de uma responsabilidade gigantesca para a qual não se sentia totalmente pronta.

 — Olivia!


    Mallow aproximou-se a passos rápidos, trazendo uma bandeja de madeira coberta por um pano estampado. Atrás dela, seu pai e seu irmão Ulu vinham acompanhados de Sceptile, que carregava recipientes adicionais para as mesas de oferendas.


 — Trouxemos o prato tradicional de raiz de caxi assada com ervas doces... O Kahuna Keahi sempre pedia isso quando passava pelo restaurante — Mallow disse com a voz embargada, entregando a bandeja para um dos assistentes do altar. Seu pai acenou com respeito para Olivia antes de guiar Ulu e Sceptile em direção aos assentos familiares. Mallow voltou-se para a mais velha, ajustando o avental. — Como você está segurando tudo isso?

 — Indo... um passo de cada vez, Mallow — Olivia esboçou um sorriso cansado, tocando suavemente o braço da garota de cabelos verdes. — O povo precisa ver firmeza agora.


    Ao fundo, a multidão abriu espaço discretamente quando Lana surgiu pela entrada da praça. Seus passos eram hesitantes, e o livro de capa gasta permanecia firme sob o braço esquerdo. Vinha acompanhada dos pais e das irmãs gêmeas. Mallow notou a chegada da amiga e trocou um breve olhar com Olivia antes de se afastar em silêncio para se juntar à sua família.
    Lana parou a poucos passos de Olivia. A mais velha suspirou profundamente, aproximando-se da menina com o olhar suave, desprovido de qualquer resquício da severidade da noite anterior. Olivia agachou-se levemente para ficar na altura dos olhos da garota e colocou a mão com ternura sobre o ombro dela.


 — Lana. Que bom que você veio — disse Olivia em um tom baixo, quase confidencial. A menina nada disse. — Sobre ontem... eu sinto muito por ter gritado com você. Minha cabeça estava cheia com a saúde do Keahi, e o eclipse deixou todos nós tensos. Eu quero que você esqueça aquilo, está certo? Não gaste a sua energia com essas preocupações. Você é jovem, cheia de vida, e seu único dever agora é praticar, se divertir com os seus amigos e cumprir seus deveres como Trial Captain.

    Olivia levantou-se, ajustando a gola de suas vestes cerimoniais antes de concluir com um suspiro um pouco mais incisivo.


 — Deixe as preocupações de Alola para os adultos.

    Lana permaneceu em silêncio, apenas assentindo devagar. Quando Olivia se afastou para organizar os preparativos finais com os anciãos, seus olhos buscaram a família de Kiawe do outro lado da praça.
    A mãe de Kiawe e sua irmãzinha dançavam em torno de um pequeno círculo de oferendas, deixando o luto fluir através de gestos ritmados enquanto lágrimas escorriam livremente por seus rostos. O Charizard de Keahi aproximou-se do círculo, juntando-se ao tributo.


    Kiawe estava parado a poucos metros dali, de pé com os braços caídos ao lado do corpo. Seu rosto não demonstrava choro, nem raiva, nem desespero. Era como se assistisse a um evento distante, desconectado do ardor do momento.


    Mallow aproximou-se dele devagar e o envolveu num abraço lateral apertado. Lana caminhou até eles, mesmo receosa, e abraçou o amigo pelo outro lado. Os dois braços das garotas o sustentavam, mas Kiawe permaneceu imóvel, com o olhar fixo na chama que queimava no centro da praça. Ele ainda não havia processado a perda; a dor parecia retida em algum lugar distante dentro dele, aguardando seu próprio tempo para emergir.

 — Lana?


    A voz suave fez a garota se virar. O garoto de cabelos verdes que participou de seu trial recentemente estava parado atrás deles.


 — Wally, não é? — Lana piscou, surpresa ao vê-lo ali.


 — Isso. Eu não esperava que algo assim fosse acontecer durante a nossa visita a Akala... — Wally disse, com o olhar penalizado ao observar o ritual. — Mas Yuri e eu achamos que devíamos vir prestar nossas homenagens.

    Ele deu um passo para o lado, distanciando-se um pouco da comoção da família de Kiawe para conversar a sós com Lana.


 — Na verdade... eu estava procurando por você — Wally continuou, encarando-a com sinceridade. — Fiquei preocupado depois do que aconteceu ontem.

 — Sério? — Lana soltou um murmúrio fraco, baixando a cabeça. — Ninguém acredita no que eu vi...

 — Eu acredito — Wally afirmou sem hesitar.

    Lana ergueu a cabeça rapidamente, encarando os olhos verdes do garoto.


 — Eu já vi coisas pelo mundo que a maioria das pessoas diria ser impossível — Wally explicou com um sorriso. — No começo, até eu duvidei das minhas próprias memórias. Mas aprendi que o mundo é muito maior do que aquilo que conseguimos explicar. Por experiência própria, te digo que algumas pessoas sempre vão querer te fazer seguir algo que elas acreditam, mas você não... E se você sentiu e viu algo, não deixe ninguém convencê-la do contrário. Você tem a força necessária para lutar pela sua verdade, Lana.


    Um arrepio percorreu a espinha da garota. As palavras de Wally ecoaram junto com os relatos da Capitã Hina em sua mente, acendendo uma faísca de determinação que a insônia e o cansaço não haviam conseguido apagar.

 — Obrigada, Wally... — ela disse, ajustando a postura. — Eu vou pensar nisso.

    Antes que pudessem continuar, o som grave do gongo central ecoou pelo Parque Vulcânico. Olivia posicionou-se no altar elevado ao lado de Hala, Nanu e Juju para dar início ao pronunciamento oficial do Tangi. A multidão calou-se instantaneamente.



 — Povo de Alola — Olivia começou, projetando a voz com firmeza. — Estamos aqui reunidos sob a proteção do Wela para honrar a memória e o legado do nosso amado Kahuna...

 — ESPEREM!


    O grito estridente cortou a cerimônia. Acerola vinha correndo pela trilha lateral com a saia de seu vestido balançando desajeitadamente. Ela tropeçou ao se aproximar do pedestal dos Kahunas, sendo amparada por Ilima com um pouco de nojo de encostar nela daquele jeito.

 — Acerola? O que significa isso? — Hala franziu as sobrancelhas espessas.

 — Muuuuurh?? — Juju também questionou.


 — O Kahuna Keahi... Ele não está morto! — Acerola exclamou afobada, apontando para a tenda ao fundo da praça.



    A multidão explodiu em murmúrios chocados. Olivia arregalou os olhos e correu na frente de todos em direção à cabana de palha, seguida de perto por Acerola.


    Kiawe moveu uma perna quase por instinto e inclinou o corpo para frente, logo estava a seguindo com alguma esperança. Lana e Mallow foram logo atrás dele.
    Dentro do recinto decorado com flores e velas, o velho Keahi jazia deitado sobre a esteira. Seu peito subia e descia em uma frequência extremamente lenta, quase imperceptível ao olhar humano.


 — Ele não estava assim ontem, mas... Meu Gengar sentiu algo estranho e vim conferir. A energia vital está dele oscilando — Acerola explicou, aparecendo na porta enquanto a sombra de seu Pokemon fantasma emergia do chão. — O corpo dele está aqui, mas o espírito... é como se estivesse preso num sono profundo de onde ele não consegue acordar.


    Olivia levou as mãos à boca, chocada com a constatação. Ao seu lado, a mente de Lana acelerou.


    Um sono profundo.


    A fenda no céu, o monstro de tentáculos pretos, a névoa rosa, aquela presença majestosa que falou com ela, o relato do livro sobre a tripulação da Capitã Hina velejando através de um sonho... Tudo se conectou instantaneamente em sua mente como peças de um quebra-cabeças.


    Desta vez, não diria nenhuma palavra. Não, não desta vez. Não protestaria como na noite anterior, nem tentaria convencer Olivia mais uma vez de que estava certa. Mesmo diante do inexplicável, ninguém admitiria estar errado. Ela apenas recuou um passo para trás, apertando o livro contra o peito, com a convicção renovada.


    Ela acreditava no que viu. Acreditava que as histórias de Hina eram reais e que havia mais além do que os outros podiam enxergar. Agora tinha certeza; encontraria uma forma de abrir os olhos de todos. Se esse era Oceano jogando o anzol, ela morderia a isca. Aceitava aquela missão.

Continua

2 comentários:

  1. Ok, eu tenho minha teoria agora… hehehe.
    Não sei como você consegue escrever duas histórias tão diferentes e tão interligadas entre si ao mesmo tempo. É necessário talento mesmo.
    Amei esse capítulo, a principio achei confuso a Raquele estar aqui, mas imagino que por ela ter cumprido o seu sonho de abrir a sua pastelaria que pode passar os portões de Lunala quando dorme? Não sei se é isso, mas pensei que a multidão “lá fora” eram os sonhos de cada um e só aqueles que vêem o seu ser concretizado é que conseguem passar os portões…
    Eu amo a lore desta fanfic e a forma como conta aqui em Alola é quase mágica. Consigo entender bem a inspiração em Moana e na cultura polinésia, e o pai da Lana é o The Rock. Desculpa, mas na minha cabeça é assim que ele está agora…
    A cerimónia fúnebre também foi muito bem escrita e transmitiu os sentimentos dos personagens, mas agora perceberam que o kahuna ainda não vai poder descansar e a história continua se desenrolando.

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  2. E voltamos para Alola, com segundo capitulo que foi muito bom e eu to que nem a Katie, eu estou com uma teoria na minha mente sobre onde o avô Kiawe está (no caso a alma dele). E fiquei contente que tem gente do lado da Lana, o pai dela e o Wally (inclusive é personagem que eu gostaria de fanfic com ele de protagonista).
    E cada vez mais tenho gostado de toda a história da fanfic e de como cada uma se conecta e também das descrições impecáveis. E estou bastante ansioso pelo próximo capitulo.

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Capítulo 2: Travessia do Mar.

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