As ondas avançavam sobre a areia, quebrando em espuma que se desfazia ao sol intenso.
O mar seguia seu próprio fluxo, livre como é suposto ser, sem qualquer final à vista.
Mais uma onda corre pela praia, espalhando-se até perder a força, e quando recua, deixa algo pequeno na beira da areia.
Entre o brilho da água que escorria, um Pyukumuku pisca como quem acaba de acordar de um sonho. Ele sentia o calor arder em sua pele úmida, além da aspereza dos grãos grudados em seu corpo, e com dificuldade ergue seu olhar para o céu.

O pequeno viu as silhuetas de Wingull cruzarem a claridade, se perdendo na luz distante.
Ao mesmo tempo, pequenos pés bronzeados correm descalços até a beira do mar. Pyukumuku ergue o olhar mais uma vez e vê uma garotinha com uma blusa bem maior que ela, bem desajeitada, equilibrando-se para não cair.
Seus cabelos curtos e azuis estavam presos por um arco de conchas na testa, deixando duas mechas compridas caindo até a altura das bochechas, e as sardas no rosto realçavam o sorriso bagunceiro que carregava.
A garotinha senta na areia, sem perceber o Pokemon que a observava. Deixa os braços caírem e apoia os cotovelos no chão, recostando-se. A brisa mexia as mechas soltas do cabelo enquanto ela sorria para o horizonte distante.
Passos suaves se aproximaram. Uma mulher alta para atrás dela, a observando em silêncio por algum tempo.
Ao lado, duas crianças a acompanhavam; um garoto de pele negra como a dela, e cabelos espetados levemente vermelhos, sério, e uma menina de pele um pouco mais clara que a deles, tímida e recolhida, que mantinha as mãos cruzadas na frente do vestido enquanto suas tranças verdes balançavam.
— É claro que você estaria aqui — disse a mulher. Um suspiro quase imperceptível escapou de seus lábios, como se entendesse tudo sem precisar ouvir. — Você não pode fugir para sempre, Lana.
A garotinha bufou, virando o rosto e brincando com os dedos na areia, traçando linhas só para a água apagá-las antes que formassem algum desenho.
— Hm? — A mulher percebeu o pequeno Pyukumuku, ainda na beira da água, tremendo levemente onde a última onda o deixara. Ela se abaixou ao lado de Lana e o pegou com cuidado. — Vejam Pyukumuku. Até ele, que a vida pertence ao oceano, às vezes, precisa ser lembrado do caminho de volta.
As outras duas crianças se aproximaram com curiosidade, bem como Lana, que agora olhava para o Pyukumuku nas mãos da mais velha. Ela o devolveu para a água, e puderam observá-lo deslizando por uma onda, desaparecendo naquela vastidão azul.
— Você também tem um lugar neste mundo — disse, levantando-se junto de Lana. — Um dia, sei que vai encontrá-lo.
— UM DIA! — Gritou um senhor magricelo e grisalho, com uma grande tatuagem de Talonflame do lado direito do peito. Segurava uma tocha, aproximando-a de uma tapeçaria com tinta desgastada. — Toda essa terra retornará ao seu estado primordial!
Lana e várias outras crianças estavam sentadas prestando atenção na história, enquanto o fogo iluminava a representação de um vulcão no tecido. Mais tapeçarias presas num varal faziam um círculo por uma cabana aberta com teto de folhas de coqueiro, e elas representavam outras figuras que lembravam Pokemon e monstros. — No começo, não havia com o que sonhar...
Oceano reinava em sua infinidade de solidão, vigiado pelos Céus que deveria refletir.
De dia, o grande sol, e de noite, a majestosa lua.
Mas as águas desejavam por movimento... Desejavam refletir outras coisas. Quando elas entenderam que estavam sonhando, a primeira maré se formou...
Um sonho do sol e da lua.
As águas dançavam com o poder dos sonhos, subiam e desciam,
e cada vez revelavam coisas novas para o grande espelho de Oceano. Sonhos do dia, sonhos da noite, todos tornavam-se realidade, e
Wela despertou, presenteando Oceano com terra, fogo, vida! Toda essa vida também sonhava com vislumbres de outros mundos,
outras formas de vida, outras manifestações da natureza...
A realidade se moldou aos sonhos, e Wela descansou na forma de um vulcão enorme
para que pudesse vislumbrar todos os sonhos que presenteou a Oceano.
Mas os sonhos do dia e da noite não são eternos... Se não cuidados,
podem ser destruídos por forças terríveis que querem
retornar aos primórdios quando não havia com o que sonhar.
— Elas matarão toda a vida que Wela presenteou a Oceano, até não restar nada e o mundo ser engolido pela escuridão eterna e sem vida que um dia já foi!
O velho terminou a história, incendiando uma tapeçaria do vulcão entrando em erupção com sua tocha, e a maior parte das crianças começou a chorar, com exceção de Lana e mais dois, os mesmos que foram ao seu encontro na praia.
— Certo, já chega, Kahuna Keahi — a mulher de antes sacudiu a tapeçaria toda queimada pelo fogo. — Estamos seguros em Akala, não tem com o que nos preocuparmos.
— As lendas são reais, Olivia! Wela me contou... Chegará o dia que todo o nosso arquipélago de Alola não sonhará mais, a não ser que alguém faça alguma coisa!
— E o que alguém poderia fazer, Kahuna Keahi? — Lana perguntou, levantando a mão.
— Wela me contou... Que alguém viajará por Oceano, num sonho com o sol e a lua, e impedirá que a nossa realidade deixe de ser refletida no grande espelho!
— Isso parece loucura — disse a menina de trancinhas verdes.
— Não é loucura, Mallow! O meu avô não é louco! — gritou o garoto de cabelos avermelhados.
— Eu não queria dizer isso, Kiawe, me desculpa...
— Mas não está errada — disse um homem grande de avental branco que entrou na cabana e a pegou nos braços, colocando-a sentada em seu ombro. — Alola já é um paraíso... Quem iria querer sair daqui por conta de um sonho?
A garotinha ficou em silêncio, e seu olhar encontrou o de Lana, visivelmente encantada com a história. — Alguém terá que ir! — O Kahuna pegou num cajado, batendo-o no chão. — Alguém em que Wela confie.
— Alguém em que Wela confie... — Kiawe estufou o peito, encarando a pintura do vulcão numa das tapeçarias.
— Tenho certeza que Wela ficará satisfeito se vocês decidirem praticar comigo agora para se tornarem bons Trial Captains! — disse Olivia, levantando um cristal losangular colorido.
— É um movimento Z! — Mallow se balançou no ombro do pai, que terminou a colocando no chão, cruzando os braços em reprovação.
— Prestem atenção em como movimento os meus braços — Olivia iniciava a dança, cruzando os braços à frente do rosto. — Chamem pelas forças de Alola... Elas vão responder.
— Está certo? — Kiawe mordia a língua enquanto tentava acertar a pose.
— É mais assim! — Mallow também fazia errado, quando uma luz azul se acendeu forte por trás deles.
— Hm? — O Kahuna viu a luz refletindo na tapeçaria que mostrava o sol e a lua ao mesmo tempo sobre o mar, e então se virou na direção dela.
Um cristal azul estava aceso à frente dos braços de Lana, que tinha os olhos fechados. Ela afastou as mãos, deixando-as caírem ao lado do corpo, e fez movimentos de ondinhas. Olivia assistiu impressionada, e quando a criança abriu seus olhos, não entendeu porque todos estavam olhando para ela.
Alola, a região da primeira terra, onde o primeiro sonho nasceu. O que seria capaz de fazê-la deixar de sonhar?

Enquanto os habitantes desse arquipélago se ocupam com seus trabalhos...
Suas tradições...
Suas batalhas...
Existe outra vida à espera quando eles fecham os olhos...
O sono os traz aqui para encontrarem liberdade e aventura.
Para encararem seus temores e fantasias.
Pois eu sou a Deusa dos Sonhos... e dos Pesadelos.
É minha função controlar os Sonhos e Pesadelos que eu crio, a fim de que eles não consumam e destruam os sonhadores. Esse é o meu propósito e a minha função.
Essa história começa no mundo desperto, que a humanidade e os Pokemon insistem em chamar de "mundo real", como se os sonhos não tivessem efeitos nas escolhas que eles fazem.
Por hoje, eles podem dormir tranquilos.
Leuri Adventures apresenta o próximo grande passo de sua história...
ATRAVÉS DO SONHO
As sandálias azuis de Lana pisaram numa poça d'água, fazendo um grande splash que foi acompanhado por sua risada travessa. Ela corria por sua aldeia na companhia de vários Pokemon da floresta como Yungoos e Pikipek, e todos bagunçavam tudo por onde passavam, derrubando frutas que alguns Machoke seguravam nos cestos e quase colidindo com um pescador.
— Lana, vai com calma! — gritou Olivia, acompanhando o Kahuna Keahi, agora mais velho e mais dependente do seu cajado para ficar de pé.
— Como ter calma se hoje é o dia do Festival Manalo?? — Ela saltou sobre uma grande poça à frente, fazendo água espirrar para cima.

— Ela se perde olhando pro céu e está sempre tropeçando pela praia — comentava um homem montado num Stoutland gorducho.
— Ela fica repetindo todos os nomes que aprendeu com o Kahuna Keahi, eu acho que não bate bem da cabeça.
— Haha! Parece que a menina tem um pé aqui e outro no passado!
— Comentei com seu pai, ela está crescendo rápido demais!
— Lapruuuasu!
Nadando sob as águas cristalinas em constante movimento no riacho, uma Lapras atracava próxima da ponte de madeira que dava acesso a um pedestal de bronze, com uma bandeira azul hasteada.

— O que é o Festival Manalo? — perguntou Wally das costas da Lapras. Seus cabelos verdes, agora em um mullet, balançavam livremente ao vento, contrastando com o chapéu de praia que usava, um pouco desajeitado na cabeça.

— Eu acho que já ouvi falar, é uma celebração muito importante para todo o arquipélago — Yuri disse, abraçado em sua cintura, também nas costas de Lapras.
— No Festival Manalo... Nós sacrificamos os turistas que venceram os trials! — Lana disse de forma assustadora, percebendo a reação dos dois e começando a rir. — Estou só brincando!
O Festival Manalo é quando os Kahunas de cada uma das quatro grandes ilhas de Alola se reúnem em torno do Vulcão Wela durante o eclipse solar! Eles fazem uma oração juntos para agradecer por toda a vida de Alola, e depois todos os Trial Captains apresentam seus Z-Moves!
— Parece muito legal — Wally disse. — Gostaria de assistir.
— É uma ótima oportunidade. Eu também nunca participei porque o festival acontece uma vez a cada duas décadas, quando teve o último eu não era nem nascida!
— Nos veremos lá então, Lana! — Yuri sorriu para ela. — Agradecemos pelo trial, aquele Totem Wishiwashi foi um verdadeiro desafio!
— Honrem os Z-Crystals que ele entregou. Usar um Z-Move é compartilhar do poder que flui por... — Lana começou a dizer, quando percebeu algo no riacho por trás dos garotos. — ...Alola...
Uma criatura sobrevoava as águas, espalhando uma névoa rosada quase translúcida. Tinha o rosto feminino preto, com longas tranças cor-de-rosa e uma espécie de vestido folgado.
— Lana? — Wally estalou os dedos na frente do rosto dela, e junto com Yuri, olhou para trás. — Está vendo algo ali?
— Não estão? — Lana os perguntou, e eles deram os ombros. Ao olhar mais uma vez, o ser que via agora sumia na névoa.
— Eu entendi! — Yuri exclamou. — É mais uma brincadeira sua, não é? Haha!
— Haha... Sim...
Lana olhou mais uma vez para a água do riacho, não vendo mais nada acima dela. Seus cabelos balançaram com a brisa, e, hesitante, virou de costas e seguiu seu caminho.

As águas do riacho refletiam o nevoeiro rosa que voltava a surgir. Lapras voltava a nadar tranquilamente, como se não notasse nada daquilo. Por cima dele, a presença de antes voltava a se manifestar, olhando para Lana que já se afastava com os garotos.
— Você não deveria estar aqui agora, Lele — disse um homem num pedaço de terra ao outro extremo do riacho. — Ela me disse para te levar de volta, hoje teremos eventos importantes.
— Eu sei, eu sei! — Ela respondeu, levitando até ele, se juntando ao nevoeiro. — Só estava querendo me divertir um pouco.
E no instante seguinte, o nevoeiro rosa já não era mais refletido na água, nem os dois estavam mais ali.

No interior de um restaurante chamado "Cozinha Aina", algumas pessoas e Pokemon terminavam suas refeições. As paredes de madeira tinham vários quadros com fotos de paisagens de Akala, além de certificados de prêmios pela excelente qualidade da comida
Um Sceptile recolhia tigelas feitas de Koa, um tipo de madeira nativa do arquipélago de Alola, quando a porta abriu fazendo um sininho balançar.
— Alola! — Lana entrou fazendo a saudação típica com as mãos, como se abrisse um arco.
— Lana, já estamos fechando! — Mallow disse, também empilhando as tigelas de Koa, quando viu Lana se sentando à uma das mesas. — Precisamos nos preparar para o festival Manalo, você sabe disso!
— Só queria um suquinho de fruta caxi, por favoooor — Lana juntou as mãos, fazendo cara de pidona para sua amiga.
— Eu já guardei todos os copos, nem vem! — exclamou um homem na janela da cozinha, com um ramo de folhas na boca assim como o de Sceptile. — Ela chega todos os dias na hora que estamos fechando, você vai abrir mais uma exceção?
— É claro que ela vai, Ulu bobão! Não é, Mallow? — Lana forçou ainda mais seu olhar pidão, com os olhos brilhando.

— Aaaargh... — Mallow se virou para a janela da cozinha, escondendo de Lana que suas bochechas agora esquentavam. — Ulu, pode deixar o restante da louça comigo. Vou preparar o suco dela.
— Se você insiste! Assim tenho mais tempo para arranjar alguém para ver o eclipse comigo — Ulu sorriu fantasiando, quando a risada de Lana cortou sua imaginação. — Tchau pra vocês duas!
— No capricho! — Mallow empurrou pela mesa um corpo personalizado como uma fruta caxi, com uma florzinha e um canudo colorido.
— Obrigada! — Lana agarrou o copo sem qualquer cerimônia, e Mallow sentou-se de frente para ela, sorridente. — Hmmm, isso aqui tá ótimo!
— É claro que está, fui eu que preparei — ela sorriu de Lana, que riu pelo jeito convencido da amiga. — Você tem que começar a aparecer mais cedo, não quero mais fazer o trabalho do meu irmão toda vez!
— Desculpa, é que eu vi algo no riacho de novo — Lana disse, mexendo o suco com o canudo. — Não parecia com nenhum monstro das tapeçarias do Kahuna Keahi, mas me lembrou de uma figura que a Capitã Hina descreveu num relato e...
— Capitã Hina? — Mallow a interrompeu. — Isso é ficção, Lana. Você sabe que eu não gosto quando começa a delirar com essas histórias inventadas...
— Eu não inventei nada, eu realmente vi algo! — Ela bateu uma mão na mesa, encarando a de cabelos verdes. — Quando foi que parou de acreditar na Capitã Hina?
— Eu... — Mallow pensou um pouco, mas escutou o sino da porta ressoando mais uma vez.
— Até o festival! — O pai dela acenava para o último cliente que saía. Ele se voltou para a filha, mudando o semblante descontraído para sério. — Mallow, estou de saída. Não esqueça de buscar nossa encomenda antes do eclipse.
— C-Claro! Pode deixar, pai — Mallow sorriu para ele, que acenou antes de também sair. — Eu vou... acelerar a limpeza aqui. Você quer ir comigo na fazenda do Kiawe?
— Pode ser, eu sei que ele vai me entender...
— Eu não entendi foi nada!
Num celeiro, Kiawe juntava pilhas de feno com um forcado. Lana estava sentada em uma das pilhas grandes, balançando as pernas.
— Uma mulher de vestido rosa dançando sobre as águas? É impossível, não dá pra pisar na água sem afundar!
— Ela não estava pisando! Ela estava... flutuando, eu acho.
— Mulheres podem fazer isso? — Kiawe entortou o rosto.
— Ela não parecia uma mulher comum! Não sei a razão, mas não sinto que a presença dela signifique algo bom justo hoje no dia do eclipse.
— Se ela quiser usar seus poderes de mulher flutuante, nós podemos acabar com ela com nossos Z-Moves — Kiawe disse, guardando o forcado e flexionando um de seus braços musculosos, fazendo Lana rir. — Não deixaremos ninguém estragar o Festival Manalo.
— Maro! Maro!
Do lado de fora do celeiro, num dos pastos verdejantes daquela fazenda, um Marowak usava seu osso para guiar vários Mareep de volta para o cercado.

— Reep! Reep! — Todos saltavam contentes, com exceção de um último muito mais lanudo, com os olhos cobertos pelo excesso de pelos.
— Maro, maro — Marowak o ajudou, empurrando-o pelo traseiro.

— Excelente trabalho, Marowak! — exclamou uma mulher alta com os cabelos presos num rabo de cavalo. Ela carregava um engradado de garrafas de leite, e Mallow a acompanhava carregando, com mais dificuldade, outro. — Pronto, querida! Sua encomenda está entregue!
— Obrigada, Pepa! — Mallow curvou-se para agradecê-la. — Lillie me avisou que vai chegar em breve. A Isa virá?
— Tenho certeza que a minha sobrinha não perderia o Festival Manalo por nada nesse mundo. Nos encontraremos lá, Mallow!
— Sim! — Mallow assentiu, e Pepa se afastou enquanto Lana e Kiawe se aproximavam.
— Você vai levar isso tudo sozinha? — Lana a perguntou.
— Se você quiser me ajudar, não precisaria ser sozinha...
— Hum... Se alguém tivesse um Pokemon grande e forte que pudesse voar pelo céu para sermos mais rápidas... — Lana dramatizou, se agarrando ao braço de Kiawe. — Talvez um que cuspisse fogo...
— O Charizard do meu avô — ele disse, e Lana sorriu arteira. — Me esperem terminar de alimentar os Lechonk que eu peço a ajuda dele!
— Nosso herói! — Lana exclamou e Mallow cruzou os braços, não conseguindo evitar rir.

No céu, a borda da lua tocou o sol pela primeira vez, como uma mordida tímida na luz. O dia em todo o arquipélago de Alola começou a ganhar uma tonalidade âmbar, e os Pokemon por todos os cantos das ilhas se agrupavam para olhar.
Abaixo, o Parque Vulcânico fervilhava com o festival. O som rítmico de tambores ecoava pelo entorno de rocha negra do corpo do Vulcão Wela, acompanhado pelos movimentos lentos e sincronizados das dançarinas.
As Dançarinas Oricorio são populares no arquipélago de Alola e dançam nas maiores conferências e festivais que reúnem os povos de todas as ilhas para celebrar. Seus vestidos lembravam as formas do Pokemon, e elas giravam em círculos enquanto pétalas nas cores de cada uma eram lançadas ao ar.
Uma dançarina um pouco mais velha foi aplaudida quando se juntou às demais, logo entrando em sincronia com seus movimentos.


Por todos os lados, as pessoas aproveitavam o festival ao lado dos Pokemon. Mesmo aquelas que não pareciam nativas buscavam alguma forma de se incluírem e eram bem recebidas por todos.
Olivia caminhava entre os preparativos, usando uma veste cerimonial feita de um tecido pesado com padrões que lembravam fósseis e pedras preciosas. Ela parou por um momento, observando o horizonte.
— Os Kahunas de Melemele, Ula'Ula e Poni já tomaram seus lugares — comentou Olivia, voltando seu olhar para o velho Kahuna à sua frente. — Está tudo pronto.
O Kahuna Keahi estava parado, apoiado em seu cajado. Seus olhos estavam fixos no topo do vulcão, onde a fumaça subia em espirais lentas.
— O senhor... vai conseguir subir a trilha? — Olivia perguntou, com o tom de voz baixando por preocupação. — O caminho é íngreme, e o senhor parece exausto.
Keahi não respondeu. Ele apenas deu o primeiro passo arrastado em direção à subida e Olivia o acompanhou.
Próximo dali, na área reservada aos Trial Captains, Lana, Mallow e Kiawe se reuniam com os demais Capitães.
[Ilima - Melemele]

— Finalmente, estamos todos aqui. Até que vocês foram pontuais.
[Oranguru - Melemele]

— Orangu-guru.
[Kahili - Melemele]

— Quanto tempo será que vai durar o eclipse?
[Sophocles - Ula'Ula]
— Ele já começou! Estamos na fase parcial, mas quando atingirmos o nível de totalidade, levará somente alguns minutos até que a luz volte.
[Molayne - Ula'Ula]

— Me lembro da última vez... Já fazem 20 anos.
[Acerola - Ula'Ula]
— Estou muito animada para saber se é como sempre imaginei nas histórias dos livros!
[Mina - Poni]

— Espero que possa me inspirar a pintar minha próxima tela.
[Hapu - Poni]

— Não se distraiam com conversas paralelas, temos que estar preparados para entregarmos nossos melhores Z-Moves!
[Kommo-o - Poni]

— Kommoooograaawr!


Lana e Kiawe interagiam com os outros capitães, enquanto Mallow, um pouco mais afastada, dava as mãos para seus amigos Lillie e Hau. A Top Coordenadora e o Surfista estavam reunidos com a amiga para o festival, cercados por seus Pokemon, como Porygon-Z, Rowlet, Popplio e uma Bruxish.
— Fazia um tempo desde que não estávamos os três juntos no mesmo lugar, combinamos de batalhar depois do festival — Mallow comentou, voltando para perto de Lana e Kiawe.
— Ahh! Olhem! — Lana interrompeu, ignorando o que a amiga dizia e apontando para a multidão.
Pelo parque, a multidão de pessoas e Pokemon começava a se afastar, abrindo um corredor para alguém que acabara de chegar. O burburinho se espalhava de forma discreta, as pessoas comentavam sobre "ela ter vindo mesmo" e se perguntavam, com certa desconfiança, sobre o que ela estaria pretendendo.
— Arhm... — Mallow balbuciou ao ver quem se aproximava atraindo tanta atenção.
Era Geeta, a Campeã da região de Paldea e herdeira da empresa
La Primera, que assumira recentemente o cargo de presidência após a morte de seu pai. Não fazia muito tempo desde que ela chegara a Alola, e o que se sabia era que sua empresa havia assumido todas as dívidas da Fundação Aether, uma enorme plataforma de pesquisas que funcionava como uma ilha artificial no meio do arquipélago. Agora, todo aquele centro de estudos e proteção pertencia a ela.
A mulher era alta e mantinha um semblante rigorosamente sério sob seus cabelos deslumbrantes. Vestia roupas que cobriam todo o seu corpo, mas as luvas que usava atraíam atenção por serem de um azul escuro tão pigmentado, com detalhes em dourado.
Ao lado dela, caminhava um senhor esguio e quase careca, cujos grandes óculos redondos de lentes verdes se destacavam no rosto pálido. Ele trajava o uniforme branco regulamentar da Fundação Aether e mantinha os olhos fixos em um tablet, operando o dispositivo com agilidade enquanto andava.
Acompanhando-os, estava uma mulher de cabelos volumosos e roupas de corte refinado, que exibia com imponência o símbolo do tridente da fundação em destaque no peito, reforçando a autoridade da nova comitiva que agora controlava a plataforma de pesquisas.
— Eles não sentem calor andando tão cobertos? — Kiawe cruzou os braços. — Parece que estão indo para o Monte Lanakila.
— Eu gosto do visual... — Mallow disse mais baixinho, mas percebeu que os dois a escutaram.
— A Aether te respondeu sobre o estágio? — Lana puxou o assunto que Mallow queria evitar.
— N-Não ainda, mas tenho esperanças. Talvez eu consiga impressionar Geeta com o meu Z-Move hoje!
— Nossos Z-Moves são para agradecer pela bênção que Wela nos deu e mostrar que sua força continua conosco!
Lana sorriu ao jogar os braços para trás da cabeça, observando Mallow se justificando para tentar fazer Kiawe entender o que estava querendo dizer. Ela olhou para o céu cada vez mais escurecido, quando algo a chamou atenção.
— Uma... fenda? — Lana apertou a visão.
Bem acima do Wela, parecia que o céu estava rachado. Uma abertura desforme emitia luz branca pelas pontas, e parecia que estava crescendo.
— Vocês estão vendo aquilo? — Lana interrompeu a discussão dos dois, os fazendo olharem para o céu.
— O eclipse? Está quase na hora — Mallow disse.
— Não estão vendo a fenda? Parece que o céu tá abrindo!
— Isso não faz sentido, não dá pra rasgar o céu.
Lana olhou para os demais Trial Captains, que conversavam também alheios da fenda. Entre as pessoas do festival, ninguém mais parecia reparar.
— A Geeta... — Lana disse ao perceber que os pesquisadores da fundação Aether agora estavam sozinhos. — Aonde ela foi?
— Lana! — Mallow chamou quando a viu sair da área reservada dos Trial Captains.
— Está quase na hora, é bom que ela não se atrase.
Ao redor da cratera do vulcão Wela, os quatro Kahunas estavam reunidos aguardando o momento do eclipse. Olivia acompanhava o Kahuna Keahi, que mantinha-se em silêncio. Ela olhava ansiosa para o céu.
— Pra onde ela foi? — Lana perguntava-se em pensamento enquanto corria entre as pessoas.
— Lana? — Ela escutou uma voz conhecida que a fez parar. — O que está fazendo aqui?
— Lana! Lana! — Duas garotinhas gêmeas saltaram tentando agarrá-la.
— Agora não! — Ela se soltou das duas. — Mãe, você viu para onde a Geeta foi?
— Filha, isso não é importante agora! Você precisa apresentar o seu Z-Move junto com os outros!
— Eu acho que ela também sabe da fenda que abriu no céu, faz sentido estar aqui por essa razão! — Lana disse e sua mãe olhou para o céu, não parecendo encontrar nada, e então voltou-se para ela.
— O momento do eclipse é muito importante, esqueça isso por enquanto. Depois você...
— Não posso! Estou cansada de ninguém acreditar em mim!
— Ela cerrou os punhos, mudando sua postura ao encarar a mãe, que a olhou com surpresa.
O badalar de um gongo fez todo o parque vulcânico vibrar e instaurou o silêncio entre o povo. No céu, o sol estava quase completamente coberto pela lua, e todo o arquipélago estava escurecendo rapidamente.
A misteriosa mulher que Lana viu sobrevoando o riacho agora aparecia novamente, subindo pelo céu até o topo do Vulcão Wela. Deixava para trás uma cortina de partículas brilhantes que Lana acreditava estarem caindo em câmera lenta.
— É ela! — Lana exclamou, dando as costas e correndo na direção da trilha do vulcão, deixando sua mãe e irmãs para trás.
[Hala - Kahuna de Melemele]
— Está na hora.
[Nanu - Kahuna de Ula'ula]
— Devemos começar.
[Juju - Kahuna de Poni]

— Muuudh!
Olivia observou os três Kahunas fecharem os olhos para começarem a oração de agradecimento ao Vulcão Wela. Quando se voltou para o Kahuna Keahi esperando que ele estivesse da mesma forma, ela se surpreendeu ao ver que a encarava.
— Olivia — ele disse, estendendo a mão livre trêmula para ela, que rapidamente a pegou, arregalando os olhos. — Faça a oração no meu lugar.
— Mas senhor... Apenas um Kahuna... — Ela parou quando ele soltou sua mão, deixando um Z-Crystal na palma dela.
— Você é a minha aposta — sua fala a fez levar a mão ao coração. — Kahuna Olivia.
— Começou, preparem-se — Hapu alertou os demais capitães quando a lua encobriu totalmente o sol, deixando Alola no escuro.
Mallow e Kiawe trocaram um olhar preocupado por Lana ainda não ter voltado, mas posicionaram-se com suas Pokeballs em mãos.
— Ah! — Lana tropeçou na subida da trilha do vulcão, apoiando-se no chão com as mãos. Ela levantou a cabeça para ver o céu, percebendo a fenda aumentar de tamanho por baixo do eclipse. — Não vou... Chegar a tempo...
A garota sentou-se, sentindo o joelho ralado doer. Ela baixou a cabeça, quando de repente, a área onde o machucado estava, agora era envolta por pequenas centelhas coloridas, e aos poucos ele desaparecia.
— O quê? — Lana levantou a cabeça, percebendo estar de frente para a mulher flutuante. — É você!
— Me vê? — Sua voz soou na mente de Lana, que se levantou assustada. — Que interessante!
— Quem é você? Por que só eu te vejo? — Lana perguntou, aproximando sua mão dela lentamente, quando escutou um estrondo e olhou na direção do barulho. — Hm?
Ao voltar-se para a mulher flutuante de novo, ela já não estava mais ali. Lana observou a névoa rosa e seus olhos estreitaram-se, então ouviu o estrondo de novo.
Ela correu na direção do som, desviando o caminho da trilha, contornando uma parte do vulcão e parando quando viu algo que nunca poderia imaginar ser real.
Pressionado contra o corpo do vulcão estava uma aberração gigantesca com diversos braços pretos saindo de seu enorme estômago, que abria-se como uma boca repleta de grossos dentes pontudos amarelos, dando para o fundo de um vazio infinito.
Geeta segurava uma Pokeball com a feição horrorizada. Ela a arremessou para frente, liberando um Pokemon semelhante a uma flor de um tom de azul profundo que rajava por todo o seu corpo, com exceção dos olhos dourados sem pupilas.
— Glimmora! — Geeta chamou pelo Pokemon. — Dazzling Gleam!
— GUUUUUUUUUUUUUYAAAAAAAAAAAAHZZAAHA!
O berro da criatura veio de dentro de seu estômago, fazendo toda a realidade estremecer. Lana observava paralisada, quando a Glimmora de Geeta estourava num clarão multicolorido. A luz intensa fazia a pele da criatura escura arder em queimaduras, e seu grito passou a carregar dor.
— Power Gem!
Abrindo e fechando suas pétalas azuis, Glimmora movimentou-se com agilidade pelo entorno da criatura que confrontava. Do centro de seu corpo, disparava múltiplos raios luminosos, pressionando-o mais ainda.
— GUUUUUUUUUUUUUYAAAAAAAAAAAAHZZAAHA!
O corpo do monstro fumegava com os disparos, mas ele lançou o corpo pesado para frente. Seu estômago devorou os raios seguintes, e seu grito fez tudo tremer como se o mundo estremecesse. Geeta mantinha-se de postura ereta, com os cabelos emaranhados balançando para todas as direções.
— Não deixarei que faça o que pretende. — Geeta levantou os braços, segurando em uma de suas luvas, começando a puxá-la para removê-la.
— GUAAAAAAAZAAAHHHLA!!
Novamente o estômago da criatura rugiu, começando a sugar tudo ao seu redor para dentro. Glimmora firmou-se à frente de Geeta, levantando uma barreira de espinhos para protegê-la, mas antes que ela pudesse terminar de tirar sua luva, escutou um grito diferente.
— O quê? — Geeta percebeu a Trial Captain tentando se agarrar em tudo a sua volta, mas cada vez mais era puxada para dentro do estômago do inimigo. — Você não deveria estar aqui!
— Marowak, desperte sua dança como as chamas do Wela! — Kiawe era iluminado por seu Z-Crsystal acoplado no bracelete que usava. — Use Inferno Overdrive!

— Marooow! — Marowak girava seu osso com as duas mãos enquanto labaredas verdes se reuniam ao redor dele, ressoando com o corpo de Kiawe.
— Cherrim, deixe as lágrimas voarem como as pétalas de uma linda flor, é hora de desabrochar! — O mesmo acontecia com Mallow, que concluía sua dança enviando sua energia para Cherrim. — Bloom Doom!!
— Cheeee!! — Várias pétalas começavam a se agrupar ao redor da flor, que ascendia em luzes verdes.
Os demais Trial Captains também executavam seus Z-Moves, e na área em que estavam, a junção das luzes formava um grande símbolo de Z que se erguia pelo corpo do Vulcão Wela.
No topo do vulcão, os quatro Kahunas estavam ajoelhados e de olhos fechados. Murmuravam suas preces enquanto suas mãos tocavam o solo quente. No céu acima deles, a mulher que Lana falou antes reunia-se com mais três entidades de corpos pretos pintados com padrões em branco e em suas cores principais, um amarelo, outra rosa, outro vermelho e por fim a última roxa. Os quatro tinham os braços estendidos, e a essência luminosa dos Z-Moves começava a ser canalizada no meio deles.

— Guardiões... Tem algo de errado — disse o com pinturas amarelas e uma crista saindo de um capacete plumado.

— Concentre-se, Koko — disse a com pinturas roxas e longas tranças caindo para baixo de um capuz coronado. — Não podemos desviar agora.

— Fini tem razão, temos que continuar fortalecendo as barreiras — disse o com pinturas vermelhas, musculoso e com chifres como de um Tauros.
— Não, Bulu... — disse Lele. — Eu também estou sentindo. Está ficando mais difícil de segurar!
A essência colorida dos Z-Moves que estava sendo canalizada pelos quatro guardiões agora transbordava para fora do círculo que faziam no céu. Fini e Bulu também começaram a sentir dificuldades para contê-la, precisando investir mais força para se manterem no controle.
— Hm?
Lana abriu os olhos. Estava flutuando num infinito azulado como o oceano, mas não havia mais nada ali. Ela fez movimentos de nado, conseguindo se locomover, percebendo também que podia respirar. Podia escutar sons muito distantes e abafados que lembravam-na de uma batalha.
De repente, todo o universo onde estava estremeceu. Lana levou as mãos aos ouvidos, apertando os olhos em agonia.
Todo o oceano infinito acendeu com pontos brilhantes, projetando uma visão panorâmica de todo o arquipélago de Alola. Lana abriu a boca em surpresa, olhando para todos os lados enquanto bolhas de ar subiam.
Você consegue ver, humana?
Lana escutou uma voz que parecia vir de todos os lados e de nenhum deles ao mesmo tempo. Ela girou o corpo, não vendo nada de diferente ao redor, mas quando olhou para cima, encontrou um rosto gigante e redondo com olhos cósmicos e uma coroa em formato de meia lua. Todo aquele universo azul brilhante se estendia para baixo de seu pescoço, como parte de seu corpo que se abria em asas enormes.
GUZAAAAAAAAAAAAAAALLAAAAAARRRRRRRRRR
O mundo tremeu, a projeção do arquipélago oscilava com longos campos de terra rosa, montanhas prateadas como o brilho da lua, um castelo com altas torres conectado por várias pontes. Lana girava com todas aquelas imagens, quando ela parou na direção de uma grande fenda que se expandia, a mesma que estava no topo do Vulcão Wela e mais ninguém via. Braços monstruosos negros rasgaram aquela fenda para os lados, arregaçando-a enquanto o corpo do monstro de antes tentava atravessá-la.
Lana não podia se mover de tanto pavor, estava muito perto daquela criatura horrenda. Seu corpo foi empurrado metros para trás em cambalhota quando quatro disparos de elementos diferentes atingiram o estômago da besta, que guinchou ao consumi-los.
Lana sentiu seu fôlego ao reclinar o pescoço, seus olhos acompanharam a mulher de tranças rosas de antes envolta num pulsar de luz rosada investir contra a criatura, formando um nevoeiro espiralado com o impacto da colisão.
De outra direção, mais três seres investiam da mesma forma, e todos atingiam a criatura em pontos diferentes.

O nevoeiro logo era consumido pela criatura que lutava para irromper da fenda, e os ataques massivos continuavam contra seu corpo. A Trial Captain via o cenário mudando mais acelerado ao seu redor, sempre com o filtro de centelhas acesas, paisagens que não compreendia intercalavam com ambientações de Alola como a própria Colina do Riacho e o Parque Vulcânico.
Os vários braços negros da criatura ergueram-se serpenteados e abriram-se nas pontas como pinças com bocas profundas de onde pulsos negros foram disparados. Eles ziguezaguearam pelo espaço, tomando rumos ramificados e atingindo cada um dos guerreiros que o enfrentavam. Suas cores passaram a desbotar e suas formas oscilaram até ficarem quase transparentes.
O estômago do monstro se abriu começando a puxar a realidade para dentro dele, aumentando a velocidade que o espaço alternava de ambientação.
Os quatro guerreiros fecharam os olhos antes de desaparecerem completamente. Onde estavam, amuletos surgiram, e todos foram puxados para dentro do estômago da criatura, perdendo-se no infinito.
Lana pensava que precisava achar uma forma de sair dali, mas nem sabia onde estava, seus pés não tocavam ao chão e remar com os braços para trás não a levava a lugar algum. Seu corpo começou a ser puxado na direção da criatura, que agora conseguia colocar uma perna para fora da fenda. O desespero começou a consumi-la, mas ao olhar na direção do destino que a aguardava no estômago daquele monstro, viu um pequeno fragmento de luz piscando que refletiu em seus olhos.
A névoa rosa voltava a se manifestar por todo o espaço. Mais seres apareciam para combater aquele que tentava invadir e consumir tudo, todos com formas estranhas que Lana nunca havia nem imaginado nas inúmeras histórias de monstros dos ancestrais. Entre eles, três peixes de cores diferentes, um rosa, um amarelo e um laranja rajado, eles passaram voando por Lana num tapete de alga colorida.
Eu não sei o que está acontecendo, mas não posso ficar parada aqui! Posso estar alucinando, mas não quero acabar como eles!
Lana pensava no que fazer enquanto via o monstrengo repelir todas as tentativas de pará-lo, quando a voz de antes voltou a ecoar pelo infinito.
"Deixe o Sonhar imediatamente, Guzzlord!"
As luzes distorcidas mas acesas por todo o espaço dançaram em movimento direcionado para a besta que Lana havia entendido se chamar Guzzlord. Riscos prateados uniformes desenharam constelações que explodiram por cima da criatura, empurrando-a de volta para a fenda, mas ela ainda resistia. No seu estômago, a luz continuava irradiando.
— Você também está vendo? — O peixe laranja rajado perguntou para Lana, que reparou nele estar flutuando ao lado dela. — Tem algo lá!
Os ataques continuavam empurrando Guzzlord para a fenda, e Lana sentia que o confronto ficava cada vez mais distante dela.
— Faça o que acredita! — O peixe afirmou para ela, e um arrepio subiu por sua espinha.
O Z-Crystal anexado em sua pulseira de conchas acendeu numa forte luz azul. Lana esticou os braços, cruzando-os no encontro dos punhos. Seus olhos refletiam a centelha no estômago de Guzzlord. Ao descruzá-los, um espiral de névoa rosa a envolveu, e uma vara de pesca surgiu em suas mãos.
Movida por uma sensação inexplicável de dever, Lana posicionou-se no ar, com os dentes de cima roçando nos de baixo, as sobrancelhas arqueadas com a testa franzida, e usou toda a sua força para jogar os braços para trás, tensionando a linha do anzol que brilha junto ao espaço cósmico onde estava. Ela projeta o corpo para frente e arremessa a vara, liberando a linha que se prolonga por metros num rastro prateado até o estômago de Guzzlord.
Quando a isca alcança a luz, a forma da besta se arrepia, desfigurando-se na fenda. Lana e o peixe veem o espaço se estabilizando ao redor, assumindo somente o tom de azul cósmico com as estrelas prateadas. Uma mão humana se ergueu do vácuo, agarrando na isca, e Lana foi puxada com toda a força na direção dela.
Bem próxima de Guzzlord, Lana esticou seu braço, tentando alcançar o que surgia do estômago dele. Seus indicadores se tocaram e uma centelha formou-se do contato.
A centelha cresceu irrompendo num clarão de tons de azul e roxo cintilantes que consumiu todo o espaço, empurrando Guzzlord de vez para dentro da fenda e a fechando. Quando o universo estabilizou-se, nada mais estava ali.
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— Hm? — Lana abriu novamente os olhos, se deparando com Mallow e Kiawe a olhando com preocupação. — O quê...?
— Você acordou! — Mallow foi a primeira a perceber.
Lana sentia sua cabeça girando, ainda não entendendo o que estava acontecendo. Sentia algo macio por baixo, e percebeu que estava nas costas de um Gogoat.
Além de Mallow e Kiawe, sua mãe, suas irmãs, Wally e Yuri, os demais trial captains e moradores das ilhas estavam ao redor dela, todos parecendo bem assustados. Ela viu Geeta conversando com os outros dois membros da Fundação Aether, e seus olhos estreitaram-se ao encontrarem os dela.
— Você! Você viu aquele monstro! — Lana apontou para Geeta, descendo das costas de Gogoat e precisando se apoiar nele para não cair. — Você lutou com ele!
— Hm? — Geeta sorriu para ela. — Estava tendo esse tipo de sonho?
— O quê?! — Lana cerrou os punhos. — Não, não! Você... Eu vi! Você viu também! Não foi...
— Eu te encontrei dormindo entre as rochas da trilha para a subida do Wela — Geeta disse sem muita emoção, e Lana não sentiu verdade em palavra alguma, mas elas a atingiram como uma flecha. — Não há de quê.
— Ai, ai... — Ilima deu com os ombros. — Lana sempre querendo chamar atenção.
— É, e nós ainda caímos mais uma vez... — Kahili cruzou os braços.
— Orannnguru... — Oranguru balançou a cabeça para os lados.
— Isso é mentira! Ela está mentindo! — Lana escutou a comoção do povo, discutindo entre eles o que acontecia.
— Ora, mas quem está sempre inventando histórias aqui é você — Hapu a confrontou.

— Eu falo a verdade! Vocês acreditam em mim, não é? — Ela voltou-se para Mallow e Kiawe, que a olhavam assustados. Nenhum dos dois respondeu algo, a fazendo dar um passo para trás. — M-Mallow...
— Ahn? — Acerola reparou que as pessoas abriam espaço para os Kahunas passarem. — O que está acontecendo?
— Precisamos de um médico! — Olivia gritou, levantando o braço para chamar atenção. Ao seu lado, Hala e Nanu estavam tensos, e Juju vinha trotando logo atrás.
— Onde está o meu avô? — Kiawe perguntou já eufórico.
A Kahuna Mudsdale Juju agachou-se, revelando o velho Keahi deitado em suas costas, com as mãos no peito respirando pesado.
— Vovô? — Kiawe aproximou-se confuso, enquanto Mallow levava as mãos à boca e Lana se chegava para perto dela.
Alguns Comfey vieram voando, obrigando Kiawe a dar licença para que pudessem examinar seu avô. Ele tentou avançar para perto, mas sua mãe o puxou pelo braço, abraçando-o por trás.
— Olivia! — Lana chamou pela mais velha, que a olhou com os olhos lacrimados. — Durante o eclipse, tinha uma fenda no céu, bem em cima do Wela! Eu fui investigar e encontrei uma besta que saiu dela! E-Eu estava num lugar tipo um sonho e...

— Lana! — Olivia gritou com ela, mudando seu semblante tranquilo para uma feição muito brava. — Aterrisse seus pés no chão! Você não pode sustentar isso até num momento como esse! Nem o Eclipse importa para você? Isso que é a realidade!
Olhando para o velho Kahuna sendo envolto nos pulsos curativos das Comfey, Lana sentiu sua respiração pesar, levando uma mão ao peito. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela virou as costas, correndo para longe dali. Mallow e sua família a observaram se afastando, mas não tentaram ir atrás dela.
As ondas do mar estavam agitadas, com a lua cheia grandiosa refletindo seu brilho prateado nas águas.
Lana correu pela areia, soltando suas sandálias ao meio do caminho, parando quando já sentia a água em seus pés. Ela respirava ofegante e suas lágrimas não caíam, mas sentia suas forças indo embora, encarando o horizonte distante.
— Toda a vida que Wela presenteou a Oceano... Alola pode estar correndo perigo — Lana disse com a voz fraca, respirando fundo antes de continuar. — Por que só eu consigo ver? Grande Espelho, eu não consigo enfrentar isso sozinha...
No céu, bem acima do Vulcão Wela, um clarão roxo surgiu colorindo as águas para onde Lana olhava. A garota levantou a cabeça, e logo uma lágrima riscou seu rosto.
Um grande Talonflame envolto em toda aquela luz roxa cruzava o céu, com suas asas se abrindo em resplendor, cortando o céu e sobrevoando onde Lana estava. Sua forma misturou-se com a água, desaparecendo ao horizonte.
Alguém viajará por Oceano, num sonho com o sol e a lua, e impedirá que a nossa realidade deixe de ser refletida no grande espelho! Alguém em que Wela confie!
— Alguém em que Wela confie — as palavras do Kahuna Keahi voltaram à sua mente enquanto o mar se acalmava.
Continua
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